O lado cômico da maternidade

sem médico, com a meia furada, mas com filha modelo

17 Comentários

Jamais ouse vir ao Canadá e não tirar o sapato ao entrar na casa de uma pessoa. É lei. Eu há muito já me acostumei a isso, só não esperava sair pra caminhar com as crianças outro dia e terminar na casa de uma amiga. Eu olhava pros meus pés e lembrava que cada um levava uma meia diferente. Até aí tudo bem, se uma delas não expusesse meu dedão pra fora de forma deprimente.

- Não, Anna, hoje não vamos entrar não, o Nic tá com fome… a gente tem que ir pra casa.

- Fome? Fiz uma maçã desidratada pra snack hoje que ficou um espetáculo! E tem bolo de banana também..sem glúten! Entra só um pouquinho, vou te mostrar as roupinhas da bebê e a banheira de parto!

Droga, essa não dá pra recusar. Lá vamos nós adentrando a residência recém-faxinada da minha amiga prestes a dar à luz. Eu desconsertada, Lily adormecida, Nic alvoroçado e meu dedão desecapado. Eu tiro os sapatos, nós duas olhamos pra baixo e trocamos um olhar. Ela arqueia uma das sobrancelhas.

- Há quantos dias o Rafa tá viajando?

- 15

- Não preocupa, eu estaria andando de camisola de flanela na rua se estivesse no seu lugar.

E entramos rindo.

* * *

A gente mora num bairro muito bacana, cheio de famílias com crianças pequenas. No início do ano a gente contou e deu 44 crianças abaixo de 5 anos. Hoje já tem mais, pois de lá pra cá devem ter nascido mais uns 8 bebês. E todos com a ajuda de uma midwife (obstetrícia). Daí que outro dia rolou o picnic anual de midwives com as famílias atendidas por elas em toda a cidade. Aconteceu num parque, que logo foi inundado por crianças correndo, mães amamentando, grávidas, práticas de ioga, massagem de graça e muita comida e informação sendo compartilhadas. No caminho eu disse ao Rafa que se alguém quisesse saber quanto a Lily pesava eu não saberia responder.

- Quantas vezes ela já cortou a franja eu sei. Quatro. Ou foram cinco? Tá vendo, nem isso eu sei! Vou saber o peso?

Mas ninguém perguntou, nem ficou falando dessas coisas. Aliás, aqui tenho notado uma tendência geral em se buscar cada vez menos os cuidados médicos pra questões como peso, sono, alimentação ou resfriados comuns. Ou gravidez. Ou amamentação. Pra isso, tem as midwives, as doulas, as consultoras de lactação, o instinto materno. Eu adoro isso! E acho que é um resultado esperado quando se tem informação, senso crítico mais desenvolvido e maior confiança no instinto e na natureza em geral, não? Hey, I’m taking charge here! Eu odeio a ideia da figura do médico como um cavalheiro que chega pra resgatar a mãezinha desesperada ou a grávida cheia de dúvidas e medos, com soluções empacotadas, generalizadas e não raramente, terroristas. (É, ainda tô sob o efeito do excelente documentário “The Business of Being Born” – A Indústria do Nascimento – que eu assisti no último fim de semana).

Claro que os médicos são importantes, mas até que ponto eu preciso deles? Ou a partir de que ponto? Aqui no Canadá pelo menos, parto e amamentação são vistos com respeito pela classe médica, mas por outro lado a GRANDE maioria apoia veementemente práticas como o “cry it out“. Aliás, vivemos uma cultura do deixa chorar, né não gente? É pressão por todos os lados! A ultima vez que levei a Lily a uma consulta de rotina, por exemplo, o médico me perguntou como estava o sono dela. Ela tinha 4 meses e acordava toda noite a cada 2 horas pra mamar. Pois ele, deixando toda sua postura médica e humana num canto qualquer, se virou pra mim e disse “Posso te dar uma sugestão? Deixa chorar. Coloca ela num quarto escuro, fecha a porta e vai tomar um vinho. O quarto escuro vai fazê-la lembrar da sua vida dentro do útero.” Eu fiquei me perguntando que tipo de submundo grotesco e aterrorizante ele acha que o útero é. Daí, quando eu disse que não era adepta da tortura infantil, ao invés dele ficar na dele e parar por ali mesmo, continuou seu blá-blá-blá de vendedor de enciclopédia ruim tentando me convencer que o método é bom pra ela e pros pais. Resultado: saí vazado e nunca mais voltei.

* * *

Por isso mesmo, Lily começou a comer sem pitaco especializado. Aos 8 meses, 50% da alimentação dela é comida sólida e os outros 50% leite materno. Não que eu esteja controlando isso, mas tá saindo assim. Comecei com cereal pra bebê e daí fui oferecendo pedaços de frutas a qualquer hora. É consenso aqui que melhor que suco da fruta é dar a própria fruta (crua ou cozida) em pedaços ou amassada, mais água. O suco destrói as fibras das frutas e deixa a criança com preguiça de comê-las.

Alternadamente, fui dando legumes amassados e como a aceitação foi boa, fui amassando cada vez menos. Hoje, a Lily come arroz integral, feijão, carne desfiada e legumes quase sem amassar. Eu, que passei muito aperto com o Nic, fico deveras impressionada e feliz com tamanha desenvoltura mastigativa da menina. E detalhe: SEM DENTES, hein? Também assisti esse vídeo inspirador do Dr. Carlos González, que me deixou mais segura por estar conduzindo a introdução de sólidos assim, de forma mais solta. Quem indicou foi a Mari. Na hora eu não tinha achado, mas agora vi que dá pra acionar o “CC” (close caption) se precisar de legenda – espanhol ou inglês.

 * * *

No mais, postando essa foto outro dia no Facebook, teve tanta gente falando que ela parecia um bebê de propaganda que resolvi fazer o contrário: uma anti-propaganda. A foto foi tirada poucos dias depois que ela fez 8 meses e estava começando a engatinhar. A cada dia que passa ela engatinha mais, mas ainda está faltando ela se dar conta que pode. Hoje mesmo, ela tirou a bota de lã e jogou lá na casa do chapéu. Mas ao invés de ir atrás, ficou no mesmo lugar resmungando e olhando pra botinha. Eu digo pra ela:

-  Vai lá e pega, florzinha. Não se deu conta que você já está engatinhando não, é?

Ela ri toda manhosa. Mas não sai do lugar.

Tudo bem, modelo de anti-publieditorial pode, né gente? Pelo menos, tirando o sapato desse jeito, ela tá prontinha pra continuar vivendo harmoniosamente no Canadá. Já tá bom. :)

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17 thoughts on “sem médico, com a meia furada, mas com filha modelo

  1. kkkkk, ô dó da meia furada! Fiquei me imaginando no seu lugar e dei graças a Deus pela sua amiga ter levado numa boa, eu já tava ficando tensa!
    E que máximo esse anti-publieditorial! Além de tudo, com uma lindeza como a Lilly de modelo fica difícil não escutar o apelo da amamentação!

    ps.: EU QUERO IR PRO CANADÁ, urgente!

    • Juliana, vem, menina, vem!!! :)

      Olha e depois dessa, claro que já tratei de jogar a tal meia fora!

      Obrigada pela visita e comentário, ta? Beijos!

  2. Lu morri de rir com a história da meia furada. Que divertido! Ainda bem que não há frescura por aí. Melhor assim…. Quanto a Lily não tem como elogiar e falar que é linda demais! Fiquei imaginando a situação dela parada e você dizendo para ela buscar a meia. Total descoberta, realmente um passo de cada vez… Como assim consigo pegar? hahaha
    Agora, em relação a dependência de médicos, de pessoas que dizem o que devemos fazer ou não atualmente também sou a favor de seguirmos nossos instintos maternos, nosso conhecimento e fazermos conforme acreditamos. Por aqui temos o costume de irmos somente nos famosos Us que são “meio que obrigatórios”, importantes para verificarem como anda o desenvolvimento. Uma relação de médico e paciente mesmo, sem grande intimidade e terapia. Acostumei e agora no terceiro filho tudo é mais tranqüilo mesmo!!!! Quanto a amamentação, como sempre jamais passou outra ação em meu pensamento. Acredito que se há condições de, sabendo da importância, então por que não fazer…
    Beijos, beijos

    • Oi Celi! Pois é, aqui, assim que o bebê nasce a gente tem o acompanhamento das midwives. Após 6 semanas, passamos a ir ao clinico geral. Mas o que eu percebo é que assim como eu, muita gente não fica levando o bebê todo mês se ele está saudável. O acompanhamento existe, mas não é rigoroso nem obrigatório.

      Beijos!

  3. Lu, brigada pelo credito!
    Enfim, tambem estou mais sossegada quanto a introducao da alimentacao aqui, e ja andei dando umas colheradas de água (mané chuquinha!), uma ponta de colher de purê, caldo de feijão – e o benicio nem fez 3 meses ainda! Mas acho que ele vai gostar de comer, e provavelmente não vai trocar peito por comida, então vou seguir a sua idéia: dar fruta a qualquer hora. eu já como a qualquer hora mesmo!
    Engraçada essa dificuldade com um filho e com outro, não. Desfraldar o joaquin também foi uma novela (limpa, mas foi novela), e com a elena foi mágico. Tão mágico, rápido e inesperado que eu nem postei sobre isso, nem deu tempo. Foi quase que de repente, a escola comecou o processo até sem me avisar (eu tava recem-parida) e daí pra casa foi fácil, e agora nem noturna ela usa mais.!! Lembrando, ela tem 2 anos e 4 meses, um record. Falei isso pra dizer que, se eu fosse pautar o processo do desfralde pela experiencia com a elena diria que é facim facim, mamão com acucar. Mas eu sei que não é, e continuo respeitando.
    Você mencionou a puericultura que foi deixada pra trás. Aqui no brasil a coisa é bem diferente. Considerando que a massa da populácão malemá escova o dente, a puericultura é muito importante pra orientar pais absolutamente perdidos. E eu, que sou a fissurada no peso das criancas! Enfim, no Canada imagino que as pessoas sejam mais escolarizadas, mais auto-informadas, além de existir toda essa rede de midwives e afins toda estruturada pra que o pediatra não seja o unico que detem o poder.
    beijos

    • Aqui também nunca teve chuquinha, Mari! Aliás, nem chupeta, felizmente!

      E engraçado mesmo como os filhos são tão diferentes um do outro… A Lily não tem absolutamente nada a ver com o Nic em nenhum quesito. Tudo até agora tem sido em tempos diferentes, formas diferentes. Muito legal isso!

      E parabéns pra sua garotinha que já se desfraldou! Que alívio, não? :) Beijos!

  4. Oi, Lu! Que saudades! E essa menina, aí? Mas tá uma belezura! E ainda com o sorriso só gengivas! Adoro! O Pedro já tem 4 dentes! Estive conversando com a Dani, do Danielices sobre essa introdução de alimentos sólidos mais solta. Achei muito legal e comecei a implementar lá em casa nos horários em que estou. A desenvoltura para comer melhora significativamente! O Pedro praticamente não engasga e a Ísis vivia engasgando com a comida, mesmo bem amassadinha! Também tenho uma relação 50/50 entre comida e mamadas, sem querer, mas fica assim com a livre demanda. O pediatra que levei o Pedro me disse para dar suco de gelatina no lugar do LM. Oi??? Nunca mais voltei e passei a ir num uruguaio bem velhinho que me encheu de elogios por ainda amamentar o Pedro. Gamei no velhinho, claro! Que delícia essas midwives, em? E esse pic nic anual me encheu de vontade! Quem sabe um dia teremos isso por aqui! Beijão!

    • Nine, saudades de você também! Engraçado que nessa idade o Nic também já tinha 4 dentes e a Lily, apesar de babar e coçar a gengiva desde os 3 meses, até hoje nada!

      Sobre a introdução de alimentos, também acho que tem funcionado muito bem assim. Acho que o importante nesses primeiros meses, é a descoberta do gosto, das texturas, o aprender a mastigar, engolir, lidar com aquele negocio dentro da boca. Depois vem a rotina, ne? Com o Nic, fiquei fissurada em implementar uma rotina desde o primeiro dia e deu foi dor de cabeça.

      Agora, suco de gelatina, Nine? Esse pediatra tá é louco! Que bom que vc encontrou um substituto pra ele!

      Beijos!

  5. Lu, ela está a coisa mais linda desse mundo……………….
    eu já tinha adorado essa foto….
    =)
    ela está uma princesa, parabéns!

    beijos grandes!!!

  6. É nossa Lilynda mesmo!

    Com seu post me lembrei dela mastigando na primeira vez que você deu cereal! Já nasceu sabendo! Como pode?
    O que mais gosto mesmo é dela comendo brócolis! Linda demais!

    Ai! Sinto falta de ficar descalça!!! hahaha

    Beijos

  7. Lu, você é demais. D
    A meia estava furada, mas tava limpinha né? Isso que importa! :)
    Ei, essa foto da Lilly tá um espetáculo né não?
    Menina, queria publicar no blog. Parece revista! :)
    Beijo, saudade

  8. Lu, caí na risada com a história da meia furada! Tive a grata oportunidade de pessar alguns dias em Vancouver estudando Inglês e, na casa da família onde estava, eles também eram muito rígidos quanto a não pisar de sandália dentro de casa. Sempre ficava grilada, se as meias estariam sujas ou com cheiro de chulé! Rs. Quanto à alimentação da Lilly, você está certíssima. Também fiz mais ou menos isso com minha Anabella e ela hoje, está com quase dois anos e se alimenta super bem. Come de tudo!! Beijo grande! Andréia Paiva (www.minhabellavida.com)

    • Oi Andrea! Pois é, no inicio, teve uma ocasião que eu me esqueci de tirar minha sandália pra entrar na casa de uma conhecida. Conversamos, fizemos lanchinho, nossos filhos brincaram e lá na hora de ir embora é que percebi que eu tinha ficado com a sandália. Eu não sei se ela tinha percebido antes, mas no final não estava com uma cara boa não. Fiquei morrendo de vergonha!

      E que legal saber que com vc também deu certo uma alimentação mais solta!

      Beijos!

  9. Sobre o episódio da meia só tenho uma coisa a dizer, essa moça realmente é sua amiga. Se fosse uma colega qualquer ia olhar bem feio pro seu pé e torcer o nariz, com ares de reprovação! rsrs
    Sobre o lance dos médicos e criação de filhos te digo outra coisa, e inclusive comentei com meu marido esses dias, quando chegar minha vez de ter filhos vou ler blogs como o seu, nada de revista (que recomenda papinha como algo bacana). Espero que continue escrevendo até lá heim? Devo levar mais uns 2 anos! rsrs.
    Liiinda Lily, como sempre uma flor.
    Bjs, Tati.

  10. Oi Luciana! Acabaram de me indicar o seu post. Escrevi um desabafo sobre a alimentação do Pedro que não está rolando como eu gostaria… O problema é que a gente cria muita expectativa, né?! Daí quando o negócio não rola, frustra geral.
    O melhor é o que você tem feito, mesmo… aos poucos, sem regras doidas. Espero muito ter a clareza de pensamento para aplicar isso aqui em casa, hehehehe
    Sobre pediatra, ah! Mandei os nossos (já fomos a 2, ambos péssimos) para algum lugar muito triste onde só servem papinha nestlé, fruta com açúcar (o infeliz me “receitou” isso pra ele comer mais fácil) e Nan =)

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