“Não empolgueis se porventura teus filhos hão dormido bem uma noite. Não alimenteis esperanças de que tal feito repetir-se-á ou concluas precipitadamente que o sistema nervoso dos teus pequenos ter-se-á amadurecido. A cada noite ininterrupta de sono, uma escapada de cocô, duas birras homéricas e três noites insones e atribuladas. Esperais, preparais e aceitais.” (provérbio materno, versão estendida)
Versão popular: Mães não dormem. Se dormiu bem, senta e espera, porque vem caca por aí.
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Após uma longa espreguiçada, ela abre os olhos. Não se recorda da última vez que se sentira tão feliz, descansada e renovada – uma estranha sensação de felpudo invade seu peito. Pela primeira vez em oito meses, acordava ela com a luz natural do sol. Seria um sonho?
Languidamente, ela lança um olhar pro lado e constata com ternura que a bebê ainda dorme. E no berço, quem diria? Um verdadeiro milagre. Melhor checar o outro. Deve estar lá chorando debaixo das cobertas, a pobre criatura. Não é possível que ele tenha dormido a noite todinha sem um único pesadelo e que ainda esteja dormindo. Já passam das 7:30! Com passos de pluma, ela chega ao quarto do filho: ahhhh, dorme feito um anjo, o meu menino, e ainda abraçado à sua boneca Moey.
Com um suspiro, ela sorri. “Será o presságio de uma nova era?” – arrisca ela a pensar.
Feliz, ela toma um banho rápido e desce pra preparar o café-da-manhã. Que fofo, o marido deixara a vitamina de frutas já pronta pro mais velho. Ela então prepara uma torrada com queijo derretido pra si e sorve uma xícara de chá quente. Ui! Quente demais, ela ri. Só hoje mesmo pra ver graça num céu-da-boca queimado. De repente, escuta uns passos, seguidos de risos de criança. Acordaram! E de bom humor!
O dia transcorre tranquilamente: escola, trabalho, almoço, parquinho, janta.
Antes de continuar a rotina que precede mais uma noite de sono, ela para e recapitula com detalhe o que fizeram no dia anterior: “não posso errar nada, tenho que fazer tudo exatamente como ontem pra garantir que vão dormir bem de novo” pensa ela com sua inocente lógica materna.
Vejamos…
1. Banho: ambos tomaram banho naquela caixa de plástico que o Nic chama de barco. Durante o banho, ela havia contado a história do trator que sabia pilotar avião pra ele e cantado ‘tchibum, tchibum’ pra ela.
2. Pijamas: sem dúvida, tinham que usar os mesmíssimos da noite anterior. Vai que emanaram alguma vibe sonífera? Ela não podia desprezar essa possibilidade. Talvez se tornassem seus pijamas da sorte. Ela sorri sonhadora.
3. Nic tomou leite com biscoito de água e sal. Depois, dentes, xixi e histórias com o papai. Lily, como sempre, dormiu na cama da mãe mamando. Ontem foi transferida com sucesso pro berço. E usou um saco de dormir.
5. Aquecedor ficou ligado a noite toda.”
E assim ela fez. Tirando a história do trator que pilotava o avião e que o Nic queria de qualquer forma que substituísse por um cachorro – veja só, NADA A VER cachorro pilotando avião, dããã! -, tudo o mais foi cumprido na mais perfeita tranquilidade. Às 20:30 ambos estavam dormindo.
A noite prometia.
Ela pega seu livro, 50 Tons de Cinza, que apesar de não achar muito bom, pelo menos não fala sobre filhos e culpa materna, e vai ler. Mas a narrativa é tão repetitiva que depois de duas páginas ela já está com sono. Que personagens mais chatos… A mocinha, vive mordendo os lábios e se enrubescendo por qualquer papel que cai no chão. Diz pelo menos dois holy craps por página. Já ele, é enfadonhamente lindo, másculo, bem dotado, empresário nato, pilota helicóptero, toca piano como ninguém, exímio dançarino, fluente em francês, excelente amante, bilionário que fez sua própria riqueza, filantrópico preocupado com a fome no mundo e como se não bastasse tamanha irrealidade, só tem 26 anozzzzzzz.
Pois após um par de holy craps e stop biting your lip, ela não aguenta e dorme. Não são nem 9 da noite. 1 hora depois ela acorda num sobressalto com um choro alto: era o Nic tendo um de seus pesadelos. Claro que a Lily também acorda. Marido vai ver Nic, ela vai pegar a Lily. Nicolas volta a dormir, Lily mama mas chora intensamente ao ser colocada no berço. Melhor levá-la pra cama deles. Lily fica feliz. Tão feliz que não quer mais saber de dormir e começa a engatinhar pela cama. Senta, dá tchau, bate palma, ri. Holy crap.
Ela se lembra do livro. No desespero, o alcança e pensa seriamente em ler umas páginas daquela história erótica entendiante pra filha – vai que ela dorme? O marido não deixa. Volta com a Lily pro berço. Ela chora. Cantam uma música de ninar. Nada. Massagem. Ela fica quietinha. A mãe para, ela se irrita. Passam ela pro moisés, onde ela quase não cabe mais. Ó! Dormiu! Voltam pra cama. Puxa, que sono! Fecham os olhos, Nicolas acorda de novo “quero papai!!!!”. Rafa vai ver o que é e fica por lá. 2 horas depois, Lily chora querendo mamar, Nic acorda com o choro dela e começa tudo de novo – a “dança das camas“, como muito bem diz minha amiga Celi.
6:30 da manhã: início de um novo dia.
Mal humorada, ela veste sua roupa, troca a Lily (que chora de sono) e veste a roupa no Nicolas (que faz uma super birra porque quer ir de pijama pra escola). Todos descem pra tomar o café-da-manhã. Que droga, justo hoje o marido não deixou a vitamina pro Nic pronta. Ela vai fazer e constata que não tem banana – a vitamina favorita do filho. Vai de abacate mesmo. Ele não toma. Faz mingau pra filha, ela come tudo. “Nic, vai pro banheiro e tenta fazer cocô!” – diz ela. Ele responde que não está com vontade. Ela olha pro relógio: estão atrasados pra escola. Não dá tempo dela mesma tomar café. Faz um chá e leva. Faz frio lá fora – 5 graus. Lily toda encapotada vai pro sling e vão caminhando.
20 minutos depois, chegam na porta da escola. Ela olha pro Nicolas e não acredita. “Não, não, não!!!” Ele tem uma das mãos no bumbum, olha pra ela e grita “cocô, mamãe! tá querendo sair!!!!”. M**da. Vão direto pro banheiro. Ela tira o próprio casaco, tira a Lily do sling, a coloca no chão. Ela chora. Se prepara pra abaixar a calça do filho e constata que ele está de macacão. Droga! “Segura o cocô, Nic! Não faz não!!!” – grita ela desesperada. Lily esgoela. Ela tiro o casaco dele, tira o macacão impermeável, a calça, a cueca e… putz, não deu tempo. Ele senta no vaso, ela pega a Lily e vai buscar a cueca sobressalente na sala de aula. Volta, bota a Lily no chão, que volta a chorar imediatamente, começa a vestir peça por peça no filho. Entra um outro menino no banheiro, que abre um olho desse tamanho, se vira e sai fora. “Melhor”, pensa ela de mal humor.
Finalmente saem do banheiro. Ela, esbaforida, ele, aliviado. Dá um beijo de despedida e entra todo serelepe. “Pelo menos está feliz” – pensa ela. E vai embora caminhando.
No caminho, vai pensando que deve haver alguma maldição pra pobre mãe que consegue dormir uma noite completa, só pode, tamanha a urucubaca! Então tenta fazer as pazes com o Seu Universo. “Uma boa ação por uma boa noite de sono?” negocia ela em pensamento. Então, naquele mesmo dia, ela leva alguns brinquedos pra caixa de doações, faz uma sopa pra amiga que teve bebê e disponibiliza no blog uns desenhos da turma do Sitio do Picapau Amarelo que tinha feito especialmente pra uma atividade com crianças brasileiras no ultimo final de semana.
Agora é com você! Baixe, imprima, divirta-se, divulgue! Ajude uma mãe a espalhar alegria, espantar a urucubaca que lhe cerca e quem sabe dormir melhor!!!
O que você vai encontrar: um PDF com 9 bonequinhos desenhados pela mamãe insone e inspirados no Sitio do Picapau Amarelo, mas com um detalhe: eles estão todos carecas! Será que seu filho conseguirá encontrar a parte de cima da cabeça de cada um? Imprima, recorte e divirtam-se procurando os pares! Depois façam marionetes pra inventar historias juntos. Tudo o que vocês precisam é do Adobe Reader que pode ser baixado AQUI, material pra imprimir, colorir e muita disposição pra brincar! Se quiser mandar fotos mostrando como ficou, vai ser muito legal!
Imprima e repasse pra quantas pessoas quiser, mas por favor, não deixe de dar os créditos! Ah, e é somente pra uso pessoal, tá? E que ao baixar essas ilustrações, além de muita diversão, você também tenha ótimas noites de sono!



























