O lado cômico da maternidade

Gravidez Nic

Palavras-chave: gravidez tranquila, preparação para parto natural, enjoos primeiro trimestre com perda peso, coceira na barriga (urticária gestacional), ronco, inchaço, quase 41 semanas com zero sinal de trabalho de parto, ansiedade no final_____________Tudo começou com as peripécias pra encontrar um médico em Kalgoorlie, que eu já contei aqui. Porque em geral gravidez do Nicolas foi ótima e transformadora…A única exceção foram os fortes enjôos que senti no primeiro trimestre e que foram agravados pelos 80km diários que eu tinha que viajar de ônibus até a mina onde trabalhava. Eu acordava todos os dias às 5:20 e não conseguia tomar café. Passei três meses levando saquinhos plásticos pro ônibus e infelizmente tive que usá-los várias vezes, apesar de não ter praticamente nada no estômago pra vomitar. Eu passava o dia inteiro com fome, mas não conseguia comer nada além de alface com limão e melancia, e alguns dias nem mesmo isso… Emagreci 4kg.

22 semanas (2)

22 semanas

A partir do segundo trimestre, vivi o período mais zen da minha vida. Pude disfrutar cada mudança do meu corpo, cada movimento do bebê e a partir dos seis meses de gravidez a empresa permitiu que eu trabalhasse em casa, meio horário. Daí, tive total liberdade pra escutar minhas músicas prediletas (e dançar eventualmente!), usar roupas confortáveis (o que não era possível na mina), fazer yoga pelas manhãs, conversar e brincar muito com o bebê na barriga, além de juntar bastante informação sobre o parto, que eu não tinha dúvida que queria natural.

E a maneira mais efetiva de entender o que era realmente um parto natural, sua fisiologia e todas as implicações que cada intervenção tinha, foi elaborando meu plano de parto, pois pra tomar cada decisão, eu tinha que pesquisar. E a medida que eu fui estudando, fui me apaixonando. Pro meu alívio, pro Rafa também tudo aquilo fazia pleno sentido e eu não tive que convencer ele de nada.

À medida que ia me informando, eu tentava interiorizar tudo aquilo. Eu não sentia medo do parto normal, mas não conseguia imaginar como seria. Por isso, passei a ler vários relatos de outras mulheres e a mentalizar como eu gostaria que fosse o parto do Nicolas e como seria minha reação a possíveis contratempos. Li sobre o prazer relacionado ao parto, sobre a importância de cada contração e que o corpo da mulher é fisiologicamente perfeito pra parir, mas que pra isso devemos aprender a nos desvencilhar das armadilhas do nosso psicológico, evitando principalmente o temido ciclo de medo-tensão-dor. Também li uma frase que entre outras coisas, eu carregaria comigo na minha hora P: “If you relax, you float; if you struggle and fight, you sink” (algo como se você relaxa, flutua; se se debate e luta, afunda).

Também conversei muito com minha mãe por telefone, que me contou que seus três partos foram normais, e que apesar de não humanizados, foram muito rápidos. Eu nasci exatamente no dia previsto, cerca de 4 horas depois do início das contrações, meu irmão após 2,5h e somente minha irmã teve o processo um pouco mais longo e difícil. Mas fiquei animada pensando que de repente o Nicolas nascesse tão rápido quanto eu…

Minha única pulga atrás da orelha era o fato de que eu não poderia saber quem me acompanharia na hora do parto. Aqui em Kalgoorlie não tem doula, infelizmente. O hospital tem uma equipe de aproximadamente 20 parteiras, que cumprem exatas 8 horas de trabalho. Finalizou um turno, vem outra. Essa idéia não me agradava nem um pouco, mas eu não tinha opção. O jeito era torcer pra meu trabalho de parto ocorrer integralmente durante o turno de uma só parteira e que eu me sentisse afinidade por ela… O médico só chegaria no final do expulsivo.

Na reta final da gravidez

30 semanas

30 semanas

Assim, o tempo foi passando. A gravidez continuava excelente e eu me sentia em total sintonia com meu bebê que respondia bem aos meus estímulos. Parei de trabalhar nos dois ultimos meses e daí fiquei totalmente dedicada às atividades relacionadas à gravidez (e à casa, claro).

Na 35ª semana, tive uma urticária gestacional que se manifestou como uma coceira insana na barriga. Nada fazia melhorar: oleo de amêndoas, gelo ou gelatina só aliviavam temporariamente. Então passei a usar somente sabonetes e cremes neutros sem fragância e depois descobri que o padrão de pensamento ‘eu não mereço algo de bom que me acontece’ poderia estar relacionado e eu achei que esse tipo de pensamento tinha tudo a ver comigo então fui mudando, mentalizando e interiorizando um novo padrão. Assim, a urticária, que deveria passar somente depois do parto, passou em poucos dias, como num milagre..

A partir da 39ª eu ainda estava disfrutando aquele barrigão todo, mas comecei a sentir uns pequenos incômodos. Tudo começou com o calor que chegava com força total naquele final de Setembro… Meus pés começaram a inchar, eu estava roncando a ponto de acordar o Rafa (!) pois não conseguia respirar direito e comecei a me sentir realmente pesada e cansada. Até aquele momento eu tinha engordado em média 0.5kg por semana, mas dali em diante, passei a ganhar de 1 a 2kg com muita facilidade. Eu que sempre fui magrela, me sentia estranha.

Felizmente eu não sentia qualquer dor, mas no fundo comecei a desejar que o momento do Nicolas nascer chegasse logo.

A data estimada do parto era 10 de Outubro, tanto pela utrassonografia, quanto pelas minhas contas. O Nicolas já estava cefálico há umas 10 semanas e sempre bastante ativo. O médico apalpou a barriga às 38 semanas e estimou um peso 3,6kg. Revisei as coisas que levaríamos pra maternidade, a casa estava arrumada e deixei a depilação em dia.

No dia 08 eu tive uma consulta com uma das parteiras, que ao saber que eu ainda não tinha tido qualquer sinal, me propôs um descolamento de membranas nos próximos dias. Em tese, este doloroso procedimento liberaria o hormônio prostaglandina que desencadearia o TP em até 4 dias. Eu recusei dizendo que preferiria esperar mais antes de tentar qualquer intervensão, afinal não tinha nem chegado na data prevista ainda… Depois disso, comecei a desconfiar se aquele pessoal era mesmo tão pró-natural quanto a propaganda deles me fazia crer…

No dia seguinte, tive uma consulta com o Dr. Austin que disse que não via motivos pra um descolamento. Ele fez um toque e constatou que o colo estava 80% apagado e macio, mas ainda não havia nenhuma dilatação. O Nicolas estava baixo, mas semi-anterior. O médico me tranquilizou dizendo que o bebê viraria e se encaixaria no momento certo, talvez no decorrer do trabalho de parto e que eu não deveria me preocupar. Eu não estava preocupada, minha confiança era de 100%.

23. 36 semanas (3)

36 semanas

No mesmo dia, decidi que já era hora de começar alguma atividade pra tentar estimular o início do processo naturalmente. Passei a Investir pesado nos três hots (hot food, hot sex, hot water), comecei a caminhar com mais frequencia e a assistir muita comédia sentada na bola ou de córcoras. Me disseram que boas gargalhadas podiam ser bem efetivas, ao menos para relaxar… e eu sou boa com gargalhadas… Assim, eu estava confiante que tudo começaria logo.

Aqui na Australia, a licença maternidade é de um ano (não remunerada, diga-se de passagem) e não tem licença paternidade (nem um dia sequer). Então o Rafa continuava a trabalhar na mina até o último momento possível, pra tirar duas semanas de férias a partir do dia que o trabalho de parto começasse pra valer. Por isso, eu tinha uma certa preocupação se eu iria ou não reconhecer o verdadeiro TP, e se uma vez começado, seria ou não muito longo… afinal, se o Rafa começasse suas férias muito antes do Nicolas nascer, eu teria que cuidar dele sozinha por mais tempo, já que ninguém da nossa família poderia vir nos ajudar.

No dia 10 (DPP), acordei achando que a festa começaria em breve. Eu comecei a sentir uma dor bem sutil, como se meus quadris estivessem se estirando, além de umas pontadinhas na lombar. Minha barriga estava dura e sentia algumas cólicas bem fraquinhas muuuuito de vez em quando (tipo de menstruação)… Fiquei animada, afinal eu estava tão curiosa pra saber como tudo seria…

O dia passou, a noite chegou e tudo desapareceu como mágica… Nem uma dorzinha sequer, nada… E agora, pra onde tinham ido os pródromos do meu TP? Fiquei triste, e acabei passando a noite toda em claro, não conseguia relaxar e dormir, só ficava prestando atenção no meu corpo, esperando, esperando… Com isso, até o Nicolas passou a noite se mexendo, o que não era normal… Acho que ele podia sentir minha ansiedade…

No dia seguinte, eu estava tão frustrada, que amanheci chorando… Eu entendia que a DPP era só uma estimativa mesmo, mas não entendia porque eu não sentia mais nadica de nada… Felizmente era um sábado e acabei encontrando apoio no Rafa que estava em casa. Conversamos, tomamos um chá e até ganhei uma massagem e muito colo. Fiquei mais calma, mas ainda assim decidi escrever pra lista Parto Nosso… eu precisava escutar que estava tudo bem, tudo normal e que meu TP começaria muito em breve…

Fiquei bem mais tranquila com as respostas, mas os dias continuavam passando e nada. É incrível como que nestas situações a gente percebe cada minuto do dia passando… Tudo o que eu queria era me distrair e parar de pensar nisso, mas por cargas d’água, nos dias 14 e 15 o Rafa teve que levar nosso computador pessoal e carro pro trabalho. Meu Deus, achei que fosse pirar! Eu estava morrendo de tédio, sem ninguém pra conversar, sem poder consultar a internet, sem ler os emails da lista, sem ler os relatos, sem poder sair pra fazer qualquer outra coisa diferente (aqui não tem transporte público)…

Nossa vizinhança não tem muitas distrações… é um bairro residencial rodeado por bush… em alguns horários do dia tem alguns cangurus entre as moitas, mas esse não era bem o tipo de distração que eu procurava…

Assim, passei esses dois dias tentando caminhar, mas meus pés inchados e o calor me incomodavam… ou dormir, mas o Nicolas estava super ativo (que bom!) chutando minhas costelas… ou yoga, mas neste ponto eu já estava cansada dos meus dvds… ou ler, mas não conseguia me concentrar… Daí, só me restava rever pela milésima vez os episódios do Seinfeld e comer chocolate branco pra acompanhar, que neste ponto já não podia mais resistir…

26. 38 semanas (4)

38 semanas

Enfim, não ter muita distração me deixou muito ansiosa e a partir daí fiquei com meus nervos à flor da pele de novo. Comecei a ter acessos de choro e a ficar realmente desesperada pra ter pelo menos um sinal! Eu não entendia porque eu não sentia absolutamente nada… Eu sabia que deveria esperar pelo momento do Nicolas, mas eu queria tanto que ele quisesse nascer logo… e foi a partir daí que eu desejei sentir até mesmo dor.

Que ironia… quando eu mais precisava, não conseguia achar motivo pra gargalhadas…

No final do dia 15 o Rafa chegou com o computador. Avidamente fui checar meus emails e com um rápido passar de olhos vi vários emails de família e amigos perguntando se o Nicolas já tinha nascido. Me dei conta que ler emails não necessariamente me ajudaria. Então escrevi outra vez pra lista, desta vez falando sobre o medo que eu sentia de mim mesma naquele momento, de não suportar a pressão do tempo passando e acabar permitindo uma indução em algum momento… Eu não achava que aguentaria esperar até 42 semanas se fosse o caso… mesmo comigo e o bebê passando bem…

Bom, felizmente fui sacudida pelas meninas da lista, me lembrando que o resultado de tudo dependeria de escolhas feitas por mim a partir de já… E com isso eu comecei a refletir se eu estava disposta a arriscar ter consequencias talvez desastrosas por pura ansiedade, afinal foram tantos meses de preparação pra um parto que eu acreditava ser melhor pra mim e pro bebê… Daí a adrenalina abaixou… Resolvi escrevi uma cartinha ao Nicolas (mais pra acalmar a mim mesma), falando que eu estava tranquila e que ele viesse na hora dele e dai por diante passei a visualizar meu colo abrindo… abrindo…

Veja a continuação com o relato do parto aqui.

Veja aqui o texto que escrevi comparando essa gravidez com a segunda.

9 thoughts on “Gravidez Nic

  1. Pingback: Relatos de gravidez e parto « Nicolando por aí

  2. Li tudo, mas acho que já tinha lido boa parte no relato que você tinha mandado pra lista!

  3. Puxa Luciana! Nao sabia que você já tinha trabalhado em mina e tal… e ainda mais gravida! Nao deve ser um ambiente muito amistoso pra uma gravida, ne? Mas que bom que no final vc conseguiu ficar em casa e curtir sua gravidez! Eu tambem curti demais a minha, ja que sempre trabalhei em casa, na tranquilidade!

    Eu tive meu bebe com 40 semanas exatamente, entao nao passei por ansiedade nehuma, pois inclusive achava que ele fosse nascer depois. Mas ja ouvi muitas gravidas passando por isso e o certo eh fazer o que vc fez: tentar se distrair e relaxar, pois todo bebe nasce, uma hora ou outra! Beijos!

  4. POxa. Adorei Tudo que voçe escreveu Total disso em palavras puras e verdadeiras tudo que sentiu que achava em palavras bem claras. Parabéns Realmente adorei mesmo e tenho uma história de vida que talvez adoraria saber ., te adicionei no msn se quiser saber me aceitar la serei grata pois não tem tenho ninguem p´ra converssa so meu marido e me sinto as vezes muito sozinha sei e tenho certeza que adoraraia ler a minha história. Eu estou gravida de 21 semanas e ainda não sei o que é estou super curiosa . mais obrigado se tiver lido e se si enteressar. Meu nome e Elaine sou de arraial do cabo rj.

    • Oi Elaine querida! Primeiro, parabéns pela sua gravidez. Eu me lembro que foi com 21 semanas que minha barriga começou a aparecer realmente… daqui a pouco você vai se sentir realmente grávida e vai ver como é maravilhosa a sensação. Fiquei curiosa de saber sua história, mas infelizmente eu não uso o msn – aliás, nem tenho ele no meu computador! Meu pequenininho não me deixa ficar muito no computador, sabe? Um dia vc vai saber como é… rsrs Mas quem sabe um dia vc não começa a escrever um blog? Poderia ser legal pra vc documentar toda sua experiencia com esse novo baby que está pra chegar e dividir com a gente!

      Um grande beijo e obrigada por sua visita!

      Lu

  5. Oi Luciana! Onde está a continuação dos relatos da gravidez? Quando clico em “Veja a continuação com o relato do parto aqui.”, o link não está funcionando… Será que na verdade corresponde a este link: http://nicolandoporai.wordpress.com/relato-do-parto-nic/ ??
    Bjo!

  6. Oi Lu, estou com 31 semanas e naquelas de ler tudo que é relato de parto hehehe. Adorei seu texto e vou continuar lendo. Ai, deve dar uma ansiedade mesmo para o bebê nascer e a pressão do povo querendo saber se já nasceu deve ser dura. Beijos da Nanda

    • Nanda, é super complicado, ne? Pois ao mesmo tempo que vc quer sair pra se distrair e tentar não ficar ansiosa, você também não quer ver ninguém pra não ficarem te fazendo essas perguntas.

      Mas te desejo muito boa sorte! Depois do Nic eu tive outra menininha, e também foi por parto normal. Nenhum deles foi fácil, mas eu não trocaria essa experiencia por nada mais.

      Boa hora pra vc!!!

      Lu

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