O lado cômico da maternidade


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Nic e a amiga imaginária

Sou pessoa completamente fascinada por histórias de crianças com amigos imaginários.

Meu interesse é tão grande, que certeza, que eu arruinaria toda uma bonita e promissora amizade se Nic tivesse um. Afinal, como seria possível que eu, criatura curiosa que sou, me contivesse sabendo que tem ali um ser com o potencial de estar respirando o mesmo ar que eu, fazendo um monte de coisas bacanas e ainda sendo o melhor amigo pro meu filho, MAS que é invisível aos meus olhos? Eu ficaria louca (oi?) e simplesmente iria querer saber tu-do sobre ele. Sempre.

Nic? Seu amigo tá aqui? Como ele é? Ele tem cabelo colorido? O que ele está fazendo agora? E agora? Ele já almoçou? Ele come a comida toda? Gosta de cebola? Ele sabe cantar “tchibum tchibum da cabeça ao bumbum”? Tem irmãos? Sabe pular de um pé só? Pode voar? Já vai pra escola? Usa cueca? Ele também faz xixi mirando a bolinha de ping pong no vaso? E tantas outras perguntas assim relevantes. Tantas, que certeza que Nic logo desistiria do tal amigo.

- Chega mamãe, meu amigo foi pra outro planeta, tá?

- É mesmo?

(silêncio)

- Mas pra que planeta, Nic?

* * *

E como Nic é menino que adora conversar com as coisas, especialmente brinquedos, pensei que ali tinha potencial pra um Calvin & Hobbes e jurei pra mim mesma que tentaria me controlar e interferir o minimo se um dia Nic tivesse um amigum imaginarium.

Então dia desses, foi a família toda passear em Whistler. Como todas as vezes que a gente sai de carro, Nic pediu pra passarmos pela tal de “trilha de carro”, um atalho nao asfaltado no meio de umas árvores que chega na rodovia. Como era mesmo caminho, lá fomos nós pela trilha. Rafa dirigia, a dinda ia na frente, e eu atrás com a turminha do balacobaco. Íamos todos calados por um instante, eu imersa em meus próprios pensamentos (provavelmente pensando em alguma bobeira pra falar) enquanto segurava a mãozinha da Lily pra ela dormir, quando escuto uma vozinha:

- Ei, trilha!

Segurei a respiração. Olhei pra minha irmã, pro Rafa, sorrimos e ficamos esperando. Sem olhar pra gente, Nic continua.

- Tudo bem, trilha?

Obviamente que não me contive nem um minuto e me joguei, toda trabalhada em voz de trilha.

- Ei Nicolas, tudo bem e você?

- Tudo bem, trilha – responde ele feliz.

- Você esta passeando? – pergunto

- Sim.

- Pra onde você está indo?

- Pra Whistlah.

- Oh, eu adoraria conhecer Whistler, você me leva?

Ele dá uma risadinha sem graça.

- Não tem jeito não, trilha, você está presa.

*

E a partir daí não parou mais. Dia após dia, Nic passou a conversar com a dona trilha sempre que passávamos por ela. Conversava sobre tudo, desde amenidades como o clima, brincadeiras, livros favoritos, até tópicos mais complexos como comportamento infantil em casa e lugares públicos. (E eu por acaso ia perder a oportunidade?) No final das conversas, dona trilha sempre terminava pedindo pra ir com ele, independente de onde ele estivesse indo, mas ele sempre dizia que não dava, que ela estava presa e além do mais não tinha perna pra andar e coisas racionais do tipo.

Até que um dia ele topou.

- Sim trilha, você pode vir.

Eu, que estava dirigindo, quase conduzi o carro pra uma vala, tamanha minha surpresa.

- Sim??? Você vai me levar? – perguntei eu com cara de trilha admirada

- Vou.

- Mas eu não estou presa?

- Não, já te soltei.

* * *

Já sabem o que vem a seguir, né pessoas?

Exatamente ali, naquele instante, surgia a primeira amiga imaginária do Nic. Não um menininho, não um animal, ou nem mesmo um carro, como eu arriscaria dizer, mas UMA TRILHA. Quando, em toda a minha existência de mãe eu poderia imaginar isso?

(lhes apresento a primeira amiga imaginária do Nic, aos 3 anos e meio)

Agora Nic leva a amiga pra todo lado. Às vezes eu faço a voz dela e temos longas conversas interessantíssimas. Outras vezes ele mesmo faz, outras só escuto sussurros. Mas o que importa é que estão na maior parte do tempo juntos. Ele vai ao Taekwondo, tá lá a amiguinha sentadinha assistindo (e aplaudindo) seus movimentos de luta e seus avanços. Vai na sorveteria, eles dividem o mesmo sorvete. Vai brincar no playground, a Trilha vai num balanço, enquanto ele vai no outro.

Mas se engana quem pensa que a situação não poderia ir além. Num belo dia, vi Nic correndo igual doido, e quando eu pergunto pra que tanta correria, escuto a seguinte resposta em meio à gargalhadas:

- A Uakatáiba tá correndo atrás de mim, mamãe! Ai, ela tá quase me pegando!!!

Ahn??? Peraí, PARA TUDO!

- Uaka-oque, Nic?

- Uakatáaaaaiba, mami – responde ele ainda correndo.

- E o que vem a ser isso, meu filho?

- É o nome da trilha, ué!

Como não pensei nisso antes.

* * *

Então, à medida que os dias passavam e aquela bonita amizade se desabrochava diante dos nossos olhos, dinda Patti e eu resolvemos iniciar um trabalho investigativo e perguntamos tudo o que tínhamos curiosidade em saber. A seguir, exponho alguns dos curiosos detalhes que conseguimos desvendar acerca desta interessante figura de nome quase indígena:

- Uakatáiba tem 5 anos, tem pernas, braços e boca.

- Ela só fala português.

- Adora sorvete, leite e brócolis, assim como o próprio Nic, mas curiosamente, também gosta de pepino, tomate e cebola, coisas que ele não come de jeito nenhum.

- Já que ele leva a trilha pra todo lado, perguntamos se quando ela está passeando haveria trilha pros outros carros passarem. Ele responde “sim, tem um tanto de trilha lá ainda. Eu só levo um pedacinho dela” – e mostra as mãozinhas juntas onde ela supostamente está.

- Ah, então ela cabe aí, nas suas mãos? “Sim, ela é pequenininha mas corre muito rápido”.

* * *

É isso. E assim seguimos, dia após dia, tentando abrir nossa mente e aceitar que nosso filho brinca com uma trilha, que corre, fala e faz cambalhotas e aprendendo a amar esse pequeno ser pedregoso que aos poucos adentra nossas vidas.

Agora me diga, mas o que a gente não faz pelos nossos filhos?

PS: Tô quase lançando um concurso pra saber quem tem historias de familia mais bizarras pra contar. Sou páreo duro, né não? Mas tô achando o máximo essa nova fase do Nic!

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