O lado cômico da maternidade


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Uma mãe ilustradoUra e seus “assistentes” [o vídeo]

Eu fiz esse video há algumas semanas, mas de repente pensei que seria legal postar aqui também!

Ele foi dirigido e editado por mim, filmado pelo marido e mostra como é meu trabalho em casa rodeada pelos meus queridos assistentes: Nic, Lily e mais atualmente, Zelda, a gatinha. É muita ajuda, gente, vocês não têm noção!

Se você ainda não viu, então clica aí! Espero que goste!

Veja mais desenhos meus no website ou acompanhe as novidades pela página do FB.


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Como acertar no presente do dia das mães

Gente, se tem uma criatura nesse mundo grande, vasto e populado, que é super fácil de se agradar e fazer feliz, essa criatura é a MÃE, né não?

Porque pra chorar litros de emoção, alegria e gratidão ao ganhar aquele beijo melequento e babado mais um cartão com tanta cola e glitter que dava pra fazer uma fantasia de carnaval de adulto, não é pra qualquer um. É pra coração maternal mesmo.

Mas então, que tal a gente valorizar ainda mais essa pessoa de coração simples e desapegado e deixá-la ainda mais feliz?

Ih, não… não tô falando de chocolates, nem de flores, nem de sabonetinhos perfumados pra colocar no banheiro, não amiguinhos. Tudo isso é muito simpático e gracinha, mas de verdade? São completamente irrelevantes pra uma pobre criatura que passa seu dia assim:

1.acordando

Acordando todo santo dia, por livre e espontânea pressão, antes mesmo do astro rei dar as caras.

2.banho

Tomando banho em companhia de pequenos seres intrusos barulhentos e brinquedinhos que buzinam e espirram água – frequentemente na direção do seu cabelo seco.

3.descanso

Que não consegue ler um livro sequer que não seja sobre carros e bichos falantes, nem ter autonomia pra assistir qualquer que seja o filme envolvendo pessoas adultas dando vexame ou falando palavras feias.

4.refeicao

Que é a última a se sentar à mesa nas horas das refeições.

5.refeicao2

6. refeicao3

E quando finalmente consegue comer é em meio a insatisfações, requerimentos e intriguinhas por qualquer motivo.

* * *

Pois agora, me diga você, coleguinha! Você realmente acha que uma pessoa que não dorme, não descansa e não tem qualquer privacidade durante o dia nem a noite, tá precisando é de uma caixa grande de chocolate trufado?

Claro que sim!!!!

Mas não pode ficar só nisso!!! <———- muito importante!

Por isso, montei pra você (pai, parceiro ou qualquer pessoa encarregada de ensinar as crianças a fazerem a mamãe se sentir realmente especial) algumas sugestões práticas, simples e muito econômicas, que vão garantir a felicidade de qualquer mãe vivente e respirante nesse planeta. Sijoga em qualquer uma que não tem erro!

Os melhores presentes que uma mãe pode querer:

7. melhorespresentes

1. Deixe a pobre mulher dormir até mais tarde. Feche cuidadosamente a porta do seu quarto e leve as crianças pra longe, muito longe. As entretenha com doces e regalias normalmente proibidas, pra que não se aproximem de lá nem se a casa estiver caindo (aliás, especialmente nesse caso). Até 11 da manhã é o recomendado.

2. Permita que ela tenha um tempo relaxante só pra ela – sem barulho, sem crianças, sem caos, sem trilha sonora da  galinha pintadinha. O mínimo de 3 horas é indispensável.

3. Lhe entregue uma boa bacia de pipoca, muitos bombons e o controle remoto. Leve as crianças ao parque e só volte quando o sol estiver se pondo.

4. Lhe prepare seu prato favorito e o melhor vinho que puder encontrar. Leve as crianças pra comer na sala de tv, no quarto, na varanda, no banheiro, não importa. O que importa é que essa dedicada mãe consiga comer sossegada, numa sentada só e que possa tirar muitas fotos de sua comida tranquilamente pra colocar no Instagram e ainda usar hashtags como #MelhorDiaDasMãesEver e #SouMãeSouDiva.

Vai por mim. Você nunca a verá mais radiante!

* * *

Este post é pra vocês, mães queridas que frequentam esse blog. Que vocês tenham um dia muito especial e relaxante! Porque a gente merece!


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A surdez seletiva, o caminhão com lama e o eco materno

Aconteceu num daqueles raros momentos em que consigo mergulhar tão completamente no meu trabalho, que qualquer conversa ao meu redor soa como uma aula da professora do Charlie Brown.

O máximo que consigo escutar, algumas vezes, é a última palavra de cada frase. Máximo. Tudo o mais é caótico, embolado e ininteligível.

Numa dessas, chega meu menino Nicolas.

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Ele tem um plano audacioso em mente, mas decide sondar o terreno e avançar com sua tropa com cautela.

E me pede pra brincar com um caminhão que eu tirei de circulação por um mês, há uns dias atrás, por motivo de mal comportamento. Não do caminhão, do Nicolas – que fique bem claro.

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O Nic sabia que em situações normais eu não cederia, mas como balbuciei qualquer coisa vaga e não disse “não” de cara, seu peito se encheu de esperança e prosseguiu. Me perguntou se tudo bem pegar uma cadeira pra alcançar o caminhão lá encima do armário.

Eu só escuto que ele quer pegar uma cadeira. Pois que mal há em se brincar com uma cadeira, gente!!! Prossiga, jovem criança!

E dou o passe livre.

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Ele se empolga.

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Mas suas palavras entravam nos meus ouvidos de forma distorcida e enfadonha. Era como se eu estivesse escutando um advogado gago tentando me explicar o histórico do sistema jurídico e tributário ao fazer meu imposto de renda. Tá brincando? Me dá logo esse documento que eu assino!

Com isso, a imaginação do meu pequeno deslancha enlouquecida.

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Totalmente sem limites.

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E sem me dar conta, assino o documento autorizando a transferencia de todos os meus bens pra um estranho.

O Nic sai correndo radiante.

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Tão radiante, efusivo e satisfeito, que chego a desconfiar que alguma coisa estivesse errada.

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Pra imediatamente descartar ideia tão absurda!

Imagina!!! Ele não passa de uma criança de gostos simples, feliz por conseguir permissão pra ir ao banheiro e tomar água!

Graça de menino!

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Até que um tempo depois, algumas palavras começam a voltar, irradiando como um eco na minha cabeça.

<<Taí uma habilidade que muitas mães têm, mas ignoram: a habilidade de ouvir ecos de um passado não tão distante.>>

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E sou atingida por uma realidade estarrecedora.

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Meu filho podia estar naquele mesmo momento, construindo uma elaborada rampa pra brincar com um caminhão cheio de lama no meu banheiro!

E saio correndo descontrolada.

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Chegando justo em tempo de evitar o pior.

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Claro que:

- Dona Lily não tava nem aí pra festa da lama que estava prestes a acontecer.

- O Nic ficou meio decepcionado, mas entendeu que tava mesmo bom demais pra ser verdade. E brincou horas com o caminhão cheio de lama lá fora.

- E eu? Bom, eu tenho me esforçado muito mais pra ouvir cada palavra do que dizem quando estou trabalhando.

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A-HÁ!! Achou que eu não fosse escutar, né?

Pois agora fiquei esperta!

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Um carro, duas crianças e um sorteio

Eu não sei como é aí, mas aqui não tem nenhum passeio de carro que salva mais.

Todos começam assim: enganadores. Um exemplo de comportamento infantil e curiosidade acerca do mundo e livros que os cercam. Orgulho me define.

passeio de carro com crianças 1

Até que ELE chega. O Espírito de Porco.

Nossa, tá pra existir criatura mais traiçoeira e ardilosa que essa, viu? Porque o velhaco começa assim, sugestionando com simpatia e risinhos, que a irmã tire os sapatos, a touca, e todo e qualquer enfeite ou adereço que lhe complemente o visual feminino.

Funciona toda vez.

Na sequencia, ele inicia a tortura psicológica. Sabe aquela coisa irritante de fazer que quaaaaaaase encosta no braço dela mas não encosta? Ou na cadeira? Ou na boneca? Então. Adorável.

Daí, a irmã, que é toda não-me-toques-e-sai-com-esse-dedo-pra-lá, claro que se descabela inteira com uma bobeira dessas. Tinha, né? Porque pra cada criatura incomodenta, há que haver uma incomodada. Lei da natureza.

Assim, todo o resto do passeio é isso aí, colegas.

passeio de carro com crianças 2

Um júbilo!

E não adianta pedir pra parar, conversar, ameaçar, nada. Quando o espíritodeporquice chega, ele se instala.

Até claro, os últimos 5 minutos que precedem a chegada de onde é que seja que estamos indo. Daí a criatura zombeteira vai embora, o menino emburra e a menina dorme.

Falha nunca.
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E os pais? Ora, enquanto o pau quebra lá atrás, claro que o mesmo acontece na frente  os pais  aproveitam pra sorrateiramente abaixar o volume daquele CD infantil que eles não aguentavam mais escutar! Afinal, pra um casal que essa semana completa 9 anos de casados, só de poder fazer um passeio sem ouvir a dona aranha subindo pela parede pela 678a vez, já é mais que lucro!

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E HOJE TEM SORTEIO GENTE!

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As ilustrações foram desenhadas e gentilmente doadas por aquela ilustradora podre de famosa da Lalelilolu Studios, sabe? Então! Ela falou que pra participar do sorteio, basta dar uma olhada numa das lojas dela (a Etsy ou a tupiniquim) e contar nos comentários quais são as duas ilustrações que você mais gosta. Ela também acrescentou que:

1. Vale pra qualquer lugar do planeta (Terra, né gente, por favor!)

2. Se curtir a página dela no Face, ganha mais uma entrada. Daí é só deixar outro comentário pra falar que curtiu.

3. Se curtir a minha página no Face, ganha mais uma (olha que fofa!).

4. Se você clicou em Odeio esse blog!!! lá encima no menu já foi eliminado. :)

5. O sorteio acontece na próxima sexta, dia 28 de Fevereiro, 20 horas (horário de Brasília).

PS: Só vale ilustrações tamanho 21.6 x 27.9 cm (infelizmente os Posteres do Alfabeto de Animais não entram no sorteio)

É isso! E boa sorte, queridos leitores!

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SORTEIO ENCERRADO!

Foram 172 entradas válidas e o número sorteado pelo Random.gov foi o 145!

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PS: Se você participou do sorteio, não ganhou, mas queria muito uma ilustração, a tal ilustradora está dando 20% de desconto até o final de abril de 2014. Basta entrar com o código “GIVEAWAY”na hora da compra (em qualquer uma das duas lojas) . Mas só vale pra quem participou, ta?


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Hoje ela faz 2 anos!

E completa com absoluta perícia e precisão, mais uma translação elíptica ao redor do sol. Sem cursinho na NASA, sem muito planejamento ou ponderação. Simplesmente foi lá e descreveu sua órbita.

Copérnico teria morrido de orgulho.

0À medida que essa menininha prodígio executava solstícios e equinócios, a comunidade científica observou com admiração o seu notável crescimento e desenvoltura perante a vida. Em apenas l ano sideral ela se tornou muito mais pitizenta confiante, teimosa persistente e insubordinada independente. Um sucesso!

Olha só que delícia é ter uma criancinha de 2 anos em casa!

  • Ela já se veste e calça sozinha.

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  • É artista experimental nata. Adora explorar cores, materiais e é grande fã das grandes telas.

3

  • É super familiar com o penico e  insiste sempre em usá-lo.

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  • Tem a mente aberta e não está nem aí pra quem a critica por levar uma vida de contradições.

2

  • Fala que nem uma matraquinha pobre na chuva, e apesar de todas as 467 novas palavras recém incorporadas ao seu vocabulário, sua preferida ainda é NÃO.

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  • Faz questão de comer sozinha e o faz muito bem – exceto pela mania de virar a colher 180 graus pra baixo ao chegar com a comida na boca e  sua peculiar forma de comunicar que não quer mais. (Vale ressaltar que um estudo científico está sendo realizado pra explicar porque a quantidade de comida que termina no chão é sempre maior que a que estava no prato. Conto tudo se chegarem a uma explicação lógica).

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  • Uns a chamam de intransigente e radical, eu prefiro considerá-la uma apaixonada por suas causas. Água no copo verde/rosa/azul, por exemplo? Um insulto!

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  • É extremamente carinhosa e companheira.

4

  • Mas às vezes, incrivelmente independente e emancipada. Ah sim, e sempre destemida. Sempre.

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  • Tem alma lúdica e suas brincadeiras preferidas dentro de casa são esconder (sempre com pelo menos 3/4 do corpo pra fora e de preferência nos mesmos dois lugares) e derrubar torres (do irmão, claro!).

2anos

  • É super prestativa e está sempre disposta a ajudar com a limpeza! (embora nunca  jogue pro mesmo time de quem está limpando.)

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  • E como se não bastasse tanta qualidade, essa menininha esperta ainda é a dona do beijo mais molhado e gostoso do mundo! Dá pra acreditar na minha sorte?

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Lily da mamãe,obrigada por trazer mais cor à nossa vida! Você me completa, me inspira, me diverte. Obrigada pelo seu sorriso aberto, pelo seu choro forte e saudável desde o dia que você nasceu , por me mostrar que posso amamentar, pelas musiquinhas que canta o dia todo com sua vozinha de fada, por chamar “mamãe” 678765 vezes por dia, por gostar tanto de me ouvir contando histórias, por gosta de escovar os dentes, por comer tão bem, por dormir tão bem, e tantas, tantas outras coisas.

Mas sobretudo, minha querida Lily, obrigada por ter me escolhido pra ser sua mãe. É uma honra pra mim poder segurar sua mãozinha e te conduzir pela vida. Te amo do fundo do meu coração!

Seja sempre feliz!


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Do ski-bunda ao divórcio

Atire a primeira fralda quem nunca teve preguiça de fazer um programa com as crianças.

Porque é todo um processo, né gente? Correr atrás da criatura que foge rindo com a fralda metade posta, metade desbeiçada. Convencer o mais velho de que cueca não é touca. Conseguir a proeza de vestir e alimentar todo mundo a tempo, e claro, preparar aquela bagulhada toda pra levar, pra no final descobrir que esqueceu a coisa mais importante de todas – seja lá o que for essa coisa naquele dia.

Daí, chegando no lugar, você ainda tem que ter a presença de espírito pra separar motins, apaziguar disputas de posse, conter pitis, lidar com sono fora de hora, comida fora da boca, cocô fora da fralda. Tudo isso, além de conviver com a frustração de nunca conseguir terminar uma frase sequer com um outro adulto. Nunca.

Mas é aquela coisa. Nos dias que você mais espera que vai ter problemas, são os dias que todo mundo mais se diverte.

E vice-versa.

* * *

Acordei radiante.

Fui tomar meu banho e saí cantarolando aquela musiquinha super fofa, descontraída e que nunca sai de moda… Como é mesmo o nome, gente? Começa com “da da da”? Ah sim, King Kong e seu King Konguinho! Pena que o Nicolas pediu pra eu parar… Talvez eu tenha exagerado na coreografia.

Mas enfim. Não ligo, pois quem saiu perdendo foi ele.

O importante é que estávamos todos animados pra ir pras montanhas brincar de tobogã na neve! O famoso ski-bunda. Há semanas que o Nicolas vinha rezando essa ladainha de que queria fazer tobogã e pra nossa sorte, dona Lily acordou toda feliz e bem humorada. Tão bom quando as crianças já estão maiorzinhas e a gente sabe que vão se divertir, ne?

O marido fez panquecas pro café-da-manhã e estava mais disposto que o usual. O lugar fica só a 45 minutos de carro e a previsão era de sol com temperatura amena de 3 graus.

No caminho fui sorrindo e imaginando nosso passeio.

nicolilando_expectativa_maternidade_inverno_canadaBrisa fresca, madeixas ao vento, céu azul, dia ensolarado.

Crianças se divertindo, toboganando felizes e claro, protegidas com seus equipamentos de segurança pessoal. A cada descida, uma comemoração, vários uhuuus, vários abraços. VÍNCULO.

Eu, tomando meu chocolate-quente (mas não tão quente) orgânico, feito de cacau equatoriano, e aproveitando pra registrar cada momento com fotos espontâneas, nítidas e de fundo levemente desfocado. Captando com naturalidade cada sorriso, cada olhar de entusiasmo, cada abraço trocado.

No meio desse misto de euforia e serenidade, engulo seco ao notar um aviãozinho circulando em círculos com uma faixa pra mim. Nela se lia “te amamos”.

Oinnnnnnnn! Que fofos!!!

Até que chegamos ao destino. Acordo com uma baba sorrateiramente escorrendo no canto da minha boca.

nicolilando_realidade_maternidade_inverno_canada

Olho pro céu e vejo tudo cinza. Nada de sol, vento gelado e úmido. Fico pensando como o clima pode mudar tanto com 45 minutos de carro.

Olho pra Lily e vejo ali a expressão de uma criança emocionalmente desestruturada. Terá ela visto o Abominável Monstro das Neves no caminho? Não duvido.

- Quer sair do carro, Lily? – pergunto

- NÃO!!!!

- Quer ficar no carro?

- NÃAAAAAAO!!!!! – responde ela brava. O famoso paradoxo metafísico aplicado.

Não quer capacete, não quer luva, não quer brincar. E fico pensando como pode uma menina mudar tanto de humor após 45 minutos de carro. Logo ela, que gosta tanto de usar essas coisas e brincar na neve.

Já o Nicolas, pra quem passou as últimas 3 semanas me atazanando com essa conversa de tobogã, me surpreendeu ao de repente se tornar uma criatura estranha comedora de neve. O menino deve ter comido pelo menos uma montanha inteira nas duas horas que ficou lá sentado. Presenciei a olhos vistos os efeitos antropológicos na paisagem moderna.

Claro que o pior foi aguentar as suas constantes idas ao banheiro pra fazer xixi depois.

No mais, não teve avião com faixa, não teve sol, nem chocolate quente.

Mas teve alguém que apesar dos choros e das esquisitices das crianças, conseguiu se divertir e muito. Meu marido.

Puto.

 


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A história ilustrada dos Laticínios Zumbi – o estabelecimento que nunca fecha(va)

Era uma vez uma menininha que não gostava de dormir sozinha.

Não que ela dormisse grandes quantidades ininterruptas quando estava com companhia. Ah, isso não.

Mas dormia, pelo menos algo que fosse.

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Uma de suas maiores dificuldades, era ignorar a irrestível Fábrica de Laticínios que ficava ali bem do seu lado e – vejam que sorte! – funcionava 24 horas por dia. Uma verdadeira tentação, especialmente pra uma garotinha daquele tamanho.

Assim que, por mais que a menininha se esforçasse pra continuar dormindo (e como se esforçava!), acabava acordando e batendo na porta da fábrica a cada 2 horas.

Toda santa noite.

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No início, a fornecedora liberava o estoque de bom grado, mas após 16 meses de distribuição ilimitada, a boa provisora acabou por ficar num estado deplorável. E realmente muito preocupante.

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Tanto a exaustão, quanto a terrível suspeita de que a pequena meliante consumidora estivesse abusando do fornecimento gratuito, em especial no turno noturno, levaram a dona do Laticínio a interromper os serviços de 24 horas.

Mesmo sabendo que poderiam haver piquetes.

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Construiu então um anexo às instalações industriais e gentilmente convidou a menininha a se mudar. Ela ainda teria a segurança de ter seu dormitório perto da fábrica, mas teria apenas água caso necessitasse se hidratar à noite.

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Mas não deu muito certo.

A menina conseguia pular os muros, e continuou interrompendo o sono (e os sonhos!) da dona da fábrica e demandando o produto lácteo várias vezes na noite. Se lhe ofereciam água, era um escândalo! Como tinham o desplante de oferecer algo tão ralo e sem gosto a uma freguesa tão fiel?

Assim, a dona da Fábrica se deu conta que deveria tomar medidas mais drásticas e decidiu proceder com o desligamento completo da pequena bezerra, migrando seu dormitório pro setor onde hoje dorme o antigo consumidor – o qual já está com 5 anos de idade e tem um sono de pedra.

(Deus conserve.)

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Ela então, vestiu a menina com um saco de dormir – que além de mantê-la quentinha, também teria a função de dificultar eventuais mobilizações noturnas -, fez festa, comemorou as novas instalações e foi pra sua cama com o peito cheio de leite esperança.

Até que, pra sua completa estupefação e assombro, às 2 da manhã lhe aparece a pequena meliante, que conseguiu driblar a segurança, saltar os muros do dormitório mesmo usando aquele saco de dormir e andar sozinha por corredores escuros até encontrar as instalações lácteas.

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Nisso, a verdade caiu como uma bomba na cabeça da fornecedora: a fábrica teria que mudar de endereço.

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Jogando no lixo toda sua dignidade, a fornecedora passou a escapulir sorrateiramente toda vez que a fugitiva vinha procurar refúgio à noite.

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Enquanto isso, o encarregado de plantão ficou responsável por conter os protestos da piqueteira.

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Foram várias noites de consolo e colo, até que num belo dia a menininha aceitou sua nova condição. Mas como crianças são criaturas de hábito, ela continuou escapando de seu dormitório toda noite. A dona da fábrica não viu portanto, outra alternativa senão permanecer no seu novo endereço.

E todo mundo passou a dormir muito bem.

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Até o encarregado do turno da noite ter que viajar. Damn it.

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Agora, a menininha que ainda acordava uma vez toda noite, teve que ser novamente atendida pela dona do Laticínio – o que despertou sua voracidade com uma força avassaladora.

Tentando manter a nova rotina da menina, a dona da fábrica resolveu mudar suas instalações pro lado do seu dormitório. Lá, ela conseguiu oferecer à garotinha a segurança que ela precisava e ao mesmo tempo mostrar pra ela que agora cada um tinha SEU PRÓPRIO espaço e que isso precisava ser respeitado.

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A menininha entendeu (!) e pela primeira vez em 18 meses, dormiu uma noite INTEIRINHA.

Após alguns dias dormindo ao seu lado, a dona da fábrica percebeu que podia voltar pra seu antigo endereço, onde voltou a dormir sozinha com o encarregado de plantão. (Uh lá lá!)

Enquanto isso, a menininha continuou dormindo bem. Bom, até seu primeiro grande resfriado. E depois o segundo.

Mas isso faz parte.

O importante é que ela realmente aprendeu a dormir e que a dona do Laticínio deixou de ser zumbi! :D


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O galinheiro, o sassariquento e o ataque do coala noturno

Ah gente querida, como eu queria vir aqui toda semana pra papear um bocadinho com vocês! Mas quem disse que consigo? Ainda mais depois que cismei de fazer um tal de projeto 365, que minha vida ficou de cabeça pra baixo, assim como se ao invés de 2, eu tivesse uns 30 filhos pequenos, mais 3 cachorros e um galinheiro.

E vocês sabem que não sou dada a exageros, né?

Pois bem, então deixa eu terminar logo de contar essa ladainha da viagem pro Brasil, que já tá me dando vergonha eu estar no mesmo assunto até hoje, 2 meses depois de voltar de lá. Cruzes.

Culpa do galinheiro. Certamente.

* * *

Mas então. Como toda visita a Beagá, a correria é tanta, mais tanta, que quando as crianças começam a se acostumar com alguém, a assimilar o que é tia, primo ou irmã-do-coração da mamãe, já é hora de catar os pertences e visitar outra pessoa. Na saída, a gente só não esquecia de roubar um pão de queijo pra comer no carro e rezar pra Nossa Senhora das Familias em Visita pela Terrinha pra não ter engarrafamento.

Coisa que nunca aconteceu. Ocupadésima essa santa, aparentemente.

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Mas tirando o transito que não transitava (e que até me rendeu umas boas balas chitas que me ajudaram a minimizar certos traumas de infância), deu pra cortar muitos itens da minha lista de coisas que não podíamos deixar de fazer no Brasil.

Número 1

Matar a saudade de abraços. Porque o Canada tem de um tudo, gente, mas não tem abraço. Tirando nos encontros com brasileiros daqui ou os desafortunados que se deparam com ursos (Deus os tenha), a chance de você angariar um abraço aqui é quase nula. Mas matei minha abstinência da melhor forma:  abraçando muita gente querida e amada. Mesmo.

Número 2

Desgarrar a Lily um tiquinho. Porque pense numa criatura agarrada. Ah, que doce, você pensou num coala? Mas não tá nem perto, viu? Então faz o seguinte: pega esse coala, encapa ele com um velcro magnético possante, cola um tanto de bolinha de chiclete ao redor e joga um balde de carrapato por cima. Balde grande. Pronto, agora multiplica por 10. Essa é a Lily comigo. Por isso, foi uma verdadeira surpresa ver ela se jogando no colo de pessoas que ela nunca tinha visto na vida e até criando laços afetivos. Milagres do Brasil.

Número 3

Ver como o Nic se sairia com a língua portuguesa. Não que esse fosse um grande problema, pois português é sua primeira língua. Mas, como ele aprendeu inglês na escola e brincando com seus amiguinhos, quando ele brinca, mesmo que sozinho, ele SÓ fala em inglês. Por isso foi muito lindo e fofo observar ele escolhendo cuidadosamente as palavras pra falar só em português quando brincava com outras crianças. Fofo mesmo. E lindo.

Número 4

Rever a turma de faculdade depois de 10 anos. Muito bom!!! Exceto a parte de encarar que sou a mesma boba de antes, só que com 10 anos a mais.

Número 5

Visitar gente bacana. Desta vez teve cria nova pra conhecer e apertar, amigas grávidas pra encontrar, lasagna da Ignes pra degustar, Ouro Preto pra visitar com gente especial, e pipa pro Nic soltar com o maior especialista do mundo – meu irmão. Check, check, check, check e check.

Número 6

Ter tempo de pernas pro ar. O que significou ter momentos de não fazer nada e só ficar por conta de papear. Foi ótimo aproveitar minha família, amigos próximos e minha cunhada divertidíssima grávida do meu primeiro sobrinho de sangue – o Pedrinho, que nasceu há poucas semanas!!!

Número 7

Ter uns dias só de meninas lá em São Paulo. Conto TUDO logo, logo, prometo.

Número 8

Comer de tudo sem engordar. Sem comentários, desastre total.

* * *

Ou seja, foram 10 dias em BH super bem aproveitados! Mas claro, se você me permite ser bem sincera, sempre tem uma desvantagem aqui ou ali, né? E pra mim, a parte mais difícil foi, como sempre, manter a rotina das crianças.

Rá, caiu nessa, foi? Desculpa, mas essa é a versão genérica, que conto pra todo mundo.

Porque a verdade verdadeira, gente amiga, difícil mesmo foi ter que assistir de camarote a disponibilidade do marido pra sassaricar com os amigos toda santa noite enquanto eu ficava lá, sendo requisitada por dona Lily (que à noite resetava todos os avanços adquiridos durante o dia e voltava pra versão original © Coala Plus).

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À rotina corrida e imprevisível a gente acaba se adaptando, né gente? Agora marido sassaricando sem você é de matar. Já não basta passar a gravidez toda intacto, ainda tem que nascer sem leite nas peitas?

Por isso, enquanto o Sr. Todo Soltinho se encontrava com Fulano, Beltrano, Cicrano ou Soprano, Liloca apurava seu método de manipulação materna, que consistia basicamente, em ameaçar gritar a todo pulmão quando todo mundo da casa já dormia, a fim de conseguir acesso rápido e imediato às peitcholas.

Claro que funcionava.

Afinal eu é que não queria me tornar pessoa malquista e indesejada pelos donos da casa – mesmo que as pessoas em questão fossem sangue do meu sangue.

Nunca se sabe, melhor não arriscar. “Vem cá, escuta. Eu sei que a Lu é linda, maravilhosa, agradável, meiga (…) e que educa os filhos como ninguém. Mas que diabos foi aquela choradeira da última noite? Credo!!! Será que ela esqueceu que tem mais gente tentando dormir nessa casa? Como ela deixa a menina ter o controle daquele jeito? É nisso que dá dormir com filho, eu bem que avisei!'”

Deus me livre de alguém saber achar que a Lily me controla. Então disponibilizei.

No entanto, assim que Liloca foi bonificada com acesso livre e irrestrito à leitaria noturna, ela, que antes acordava uma a duas vezes, passou a acordar duzentas. Natural, vai! Infelizmente, 200 também foi o numero de camadas de corretivo necessárias pra camuflar o aprofundamento das minhas olheiras.

Agora pensa comigo. Se hoje, que estou no sossego da minha casa, cuidando do meu galinheiro tranquila, já ando com cara de quem passou a noite rodando dentro de uma betoneira e logo em seguida foi atropelada por um caminhão com rolo compressor, imagina no Brasil, com uma atividade diferente todo dia?

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Não foi bonito não, gente.

Em um mês, em seguida volto pra contar os causos de São Paulo. Última parte.


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Quando viajar com crianças é só uma questão de perspectiva

“Viajare con crianzae pode ser bonno, malum o terriblae. Dependum de la perspectivae, et também se habemus mamam, se habemus papam et como agem los duo.”

Proverbium latinum.

Depois da última viagem às terras tupiniquins, jurei pra mim mesma que só voltaria após a invenção do teletransporte.

Bom, na falta dele, pensei que o mínimo que as companhias aéreas deveriam fazer era promover todo mundo viajando com filho pequeno direto à primeira classe.

- Seu nome, por favor.

- Luciana Azevedo.

- Passagens somente pra senhora, Sra. Azevedo?

- Não, também vou levar minha filha de 1 ano e meu filho de…

- Desculpa interromper, mas não precisa dizer mais nada. A senhora aceita uma taça de champanhe?

- O-o que está acontecendo? Peraí, isso é chuva de confetes?

- Sua família acaba de ser automaticamente promovida à primeira classe em todos os voos de ida e volta pelo preço da econômica! Parabéns!

- Me-mesmo?

- Sim! E por terem dois filhos pequenos, vocês ainda terão uma limosine à disposição pros traslados devidamente equipada com chofer, manicure, duas cadeirinhas pras crianças, cookies de semente de girassol e chia, tábua de frios e uma vasta seleção de vinhos franceses. Tudo sem custo adicional!

Gente! Custava???

Mas não. Sabem o que fazem do contrário?

Colocam uma mãe, um pai e uma criança de dois anos que nunca tinha dormido uma noite completa na vida, confinados no meio de uma estúpida fileira de 5 assentos no meio do avião. Imagina a situação. Duas pessoas e meia enclausuradas por 10 horas noturnas em três poltroninhas esmirradas (não no sentido de terem sido feitas de mirra… [porque lembra, né? Ouro, mirra e incenso?] … mas no sentido de serem apertadas mesmo – só pra esclarecer).

Pra piorar, ouvi dizer que a mãe em questão, coitada, ainda sofreu requerimentos intestinais a cada meia hora durante todo o voo.

Se fosse comigo, eu só não pedia pra morrer ali mesmo porque tenho superstição pra essas coisas.

* * *

Agora, pior que isso, é passar todo um perrengue desses, enquanto do seu lado tem um casal fofo, todo trabalhado no filminho, sonequinha e comidinha de avião, com um filho que dorme o voo todinho, sem dar um pio.

Aí não!

Passei exatamente por isso nas 28 horas de voo da Australia pro Brasil, quando o Nic estava com 5 meses e tinha refluxo. O avião era até bacana, equipado com bercinho e tudo, mas era como ter um banquete na nossa frente e não poder comer, sabe? Veja bem, pra começar, eu passei metade do tempo de voo em pé no corredor, dançando forró com o iPod coladinho no ouvido do Nic, pois essa era a única forma que ele dormia. Eu cansei de escutar os atendentes me implorando pra sentar e colocar o cinto, e até aprendi a ignorar a cara de interrogação dos gringos olhando pra mim. Tudo isso, pra colocar o Nic no berço e ele acordar – enquanto o vizinho não acordava nem pra dizer “nhém”.

Brutal.

Ou seja, enquanto eu saí do avião tonta de cansaço, zonza de inveja e enjoada de todo aquele Fala Mansa na minha cabeça, os pais dessa criança dorminhoca devem ter saído propagando que voar com bebê é mamão com mel, de tão doce.

Perspectivas diferentes.

Daí, que esse ano, só posso ter batido a cabeca em algum lugar, porque decidi ir de novo pro Brasil. E pior, com uma criança a mais.

Felizmente, quem tem marido que viaja muito, alem de aprender a escovar os dentes com o pé, ainda tem chances de conseguir promoção pra classe executiva com as milhas acumuladas.

Não precisamos de esmola não, viu suas airlines?

* * *

IMG_4015(as quiança tudo de pijama no aeroporto)

Entro no avião às 10:30 da noite.

À medida que me aproximo do meu assento, mal consigo conter uma lágrima furtiva de emoção. “Amor, me belisca (mas não com força) que eu só posso estar sonhando” – consigo balbuciar.

Ali, à minha frente, se encontrava a visão mais espetacular que uma mãe em espaço aéreo pode sonhar: poltronas individuais, confortáveis e com-ple-ta-men-te reclináveis. PERFEIÇÃO. O Éden sobre duas asas.

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Até que eu sento e me dou conta que o tal Éden era estreito demais pra mim e Lily.

Acredito que o resto do voo vocês mesmos podem adivinhar como foi. Só quem já tentou dormir com uma criança de sono leve encima de si próprio, e tentou com todas as suas forças ignorar aquela coceirinha persistente na beirada do umbigo, sabe que a situação fica insustentável depois de meia hora. Ou mesmo 1 minuto, dependendo da coceira.

Ali eu fiz de tudo, colegas. Tentei dormir sobre meu ombro pra caber a Lily do meu lado, troquei de lado, voltei com ela pra cima de mim, ela escorregava, eu a sustentava com o braço, o braço adormecia, eu virava de lado outra vez, ela acordava, eu dava peito, punha travesseiro, tirava travesseiro, chorava.

Oito horas se passaram e eu não preguei os olhos. Tanto tempo fazendo cama compartilhada, pra descobrir que não sei compartilhar poltrona.

Olho pro relógio, faltam 2 horas pra pousar. Tento abstrair, lembrar das minhas aulas de ioga e me transcender pra um nível superior de pensamento. Penso no quanto somos afortunados por termos conseguido o upgrade, que raras famílias têm essa oportunidade, e como era bom saber que o Nic e o Rafa estavam ali, confortavelmente instalados nas poltronas ao lado.

Peraí.

Rafa. Confortavelmente instalado. Hm.

É, nunca fui boa em ioga mesmo.

Pro inferno com esse negócio de elevar o espírito. Ao invés, elevo minha cabeça pra chamar o pilantra pra me ajudar. Mas sem chance, as cadeiras são altas demais e incomunicáveis. Nesse momento meus olhos passam pelo homem à minha frente: tranquilo, relaxado, sentado comodamente com suas pernas esticadas, encosto semi-reclinado, sorvendo sem pressa o seu café matinal, enquanto assiste à sua ampla seleção de lançamentos. Puto.

Nisso, aparece um outro ser na minha frente.

Figura sorridente, simpática e descansada. Passa a mão nos cabelos com graciosidade, faz cute-cute na bochecha da Lily e solta:

- E aí, amor, me fala se todo o tempo que você passa sozinha com as crianças enquanto eu viajo, não compensa nessas horas?

O fulmino com os olhos a ponto dele virar carvãozinho no chão. Entrego a Lily pra ele, olho pro relógio: não dá pra perder tempo, tenho 34 minutos.

Reclino totalmente minha cadeira, me deito e pela primeira vez em quase 10 horas sinto o prazer em viajar na classe executiva.


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Vi monstro, escrevi livro, virei travesseiro, mas queria mesmo era ser o Mussum

Eu tinha 5 anos quando vi meu primeiro monstro, o Nic tinha pouco mais de 4 quando começou suas primeiras perguntas transcendentais e a Lily tinha 14 meses quando resolveu me fazer de travesseiro.

Tudo no mesmo nível de importância. Aparentemente.

Ver monstro pra mim era coisa trivial, todo dia eu via um. O Monstro de Bolinha foi o primeiro, com uns 4 metros de altura ou mais, todo feito de bolinhas brancas empilhadas – até simpático, ele. Me apareceu em plena luz do dia, no quintal da minha casa. Olhei pra ele e saí correndo, que não sou boba, mas meu medo mesmo era daquelas bolinha tudo desmoronarem no chão e me derrubarem feito boliche. Ou quase, já que seriam várias bolinhas pra um pino só. No caso, eu.

Isso sim, teria sido loucura.

Eu&irmaos

Estaria meu irmão vendo o Monstro de Bolinha?

Depois dele, virou festa. Passei a ver extra-terrestres, monstros peludos no telhado, passarinho voando com uma asa só (tenho quase certeza), monstro pernicioso que atravessava a porta de vidro da nossa casa mesmo com ela fechada (e minha mãe insistia que era sombra da árvore. Aham, sei.), e cheguei até a ouvir barulho de estrela piscando. Coisas desse naipe se tornaram tão comuns na minha infância, que me pareceu normal criar pra mim mesma um passado alienigena e até escrever um livro de terror aos 13 anos de idade. Believe me.
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Uma história sinistra, sobre um baú secreto escondido num porão obscuro. Onde estará?

Acho que por causa desse meu background tenebroso, cresci destemida e corajosa, sabe? Nunca nada me assustou nessa vida. Exceto baratas. E marimbondos. E lugares altos. E pessoas que adoram contar como gostam de lugares alto. E galinhas da Angola (vem me dizer que não são assustadoras!). Ah claro! E o bonitão da bala Chita.

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Como não?

Hoje em dia, eu adoro filmes de terror e suspense, mas confesso que nada me dá mais frio na barriga, que as perguntas que meu filho anda me fazendo. Não existe hora certa pra perguntas difíceis, né? Não importa o quanto a gente já pensou e ensaiou as respostas, elas sempre nos pegam desprevenidos. Ultimamente, ele tem escolhido justo quando estou fazendo comida e jogando Candy Crush simultaneamente (pra não dizerem que perco tempo com joguinhos).

Ele começa assim “Mamãe…” com uma vozinha super doce e fofa como quem vai dizer “você é a melhor mãe do mundo”, mas ao invés, completa com um”porque que a gente morre?” ou “como os bebês são feitos?“.

Isso sim, é de estremecer qualquer estrutura.

Me dá um Monstro de Bolinha sentado no murinho da cobertura de um prédio de 200 andares comendo um saco de bala Chita, mas não me pergunta porque que a gente morre, que isso me mata.

* * *

Pra completar, noite dessas, dormi toda enrolada feito uma lagarta pronta pra virar borboleta. Em certo ponto da noite, quando já estava quase amanhecendo, comecei a sentir um determinado incômodo, um desconforto. Eu ainda estava semi-dormindo, mas sentia que algo me atrapalhava, me imobilizava. Eu tentava me virar e não conseguia. Mexer a cabeça, não dava. Freddy Krueger, é você? – sonhei. Acordo com o clique de uma câmera fotográfica, um hi-hi safado bem baixinho, até que vejo a mão do Rafa se estendendo na frente do meu rosto me mostrando a cena da qual eu fazia parte.

Essa.

travesseiro

Um travesseiro sobre o outro

Nesse momento, me dou conta no que eu havia me transformado: um mero travesseiro. Pra minha filha. Que nunca havia dormido. Tão. Bem.

* * *

A mesma filha, que aos 16 meses já fala VÁRIAS palavras. Tipo, umas cinco. E que ao invés de “Nei”, como ela costumava chamar o irmão Nicolas, agora chama ele sabe de que?

Eu: De-dé! A Lily agora chama o Nicolas de Dedé, acredita? Assim que nascem os apelidos bizarros nada a ver.

Rafa: Pois é, o meu era “Coté”, por causa da minha irmã Fernanda.

Longa pausa pra me recuperar de tanto rir.

Eu: COTÉ? CO-TÉ? Tem certeza?

Rafa: Eu já tinha te contado isso, sua boba.

Eu: Eu sei, mas é sempre bom tirar sarro da sua cara! Coté é pior que Dedé, cá pra nós! O Dedé era sem graça, mas pelo menos era um dos Trapalhões. Você teria tido mais sorte se ela tivesse te chamado de Tião Macalé. Melhor que Coté, né não?

Rafa: Ha-ha.

Eu: E sabe como a Lily tá se chamando? Didi! Quer ver? Lilinhaaaaa! Fala “Lily”!

Lily: Didi!

Eu: Viu? O que deixa o Mussum pra mim e o Zacarias pra você!

Rafa: Porque o Zacarias pra mim? É você quem se amarra numa peruca!

Eu: Putz, falou tudo… E agora? Tava tão empolgada que eu fosse poder ficar falando “forevis” e “cacildis” o dia todo!

Rafa: Que pena.

Eu: E coraçãozis.

Rafa: É né?

Eu: E Nicolilandis por aízis.

Rafa: (…)

Eu: E Lucianis, e Lilis, e Nicolis.

Rafa: Você não vai parar, vai?

Eu: E Rafis…?

trapalhoes

Juro. Ainda preferia ser o Mussunzis

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