E aos poucos iam chegando os tripulantes do cruzeiro. Duas cenas chamavam a atenção dos transeuntes que ali passavam.
De um lado, uma senhora esbelta em um modelito primaveril e esvoaçante da Versace, sandálias Manolo, acessórios e suave fragância da Chanel, óculos de sol da Saint Laurent e cabelos meticulosamente presos em coque, descendo com elegância mas com marcada expressão de tédio, de sua lustrosa Limusine, enquanto seu chauffeur hábil e cortezmente descarregava suas cinco malas da Louis Vuiton.
Do outro, um casal usando a última coleção primavera-verão da Malhas e Cia, sapatos da Pé-Konforto, chapéus com I love Hawaii em degradê, óculos de sol da Sun Lorran e vários colares de flores (de plástico) no pescoço, descendo com ansiedade de um táxi com pinturas de hibiscos, carregando uma criança inquieta de 18 meses, um bebê conforto, uma bolsa grande com brinquedos, uma mochila com o laptop, três malas desbotadas da Só Malas com fitinhas coloridas amarradas (pra não serem confundidas!), sacolas com suplimentos infantis recentemente comprados no WalMart, um carrinho de bebê difícil de abrir e uma câmera fotográfica, rindo que nem bobos e se cutucando com os cotovelos, vislumbrados com aquele navio enorme e luxuoso que os aguardavam à frente.
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Pois foi mais ou menos assim que chegamos ao porto.
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Eu já contei aqui sobre nossa decisão de fazer um cruzeiro ao invés do voo de avião do Havaí pra Vancouver. Evitaríamos mais horas de voo, teríamos mais comodidade, espaço, entretenimento e por um preço justo. Certo?
Em parte.
Bom, o preço, à meu ver foi bem razoável. Você paga pouco mais que uma passagem aérea por pessoa (criança paga metade) e tem muito mais regalias e conforto que um voo de primeira classe, além de comida à vontade à qualquer hora do dia.
MAS… não vá pensando que o navio é um paraíso encantado feito sob medida pra pais e sua querida- saltitante-e-alvoroçada cria. No, sir. Muito pelo contrário. Deu pra notar que quem movimenta esse tipo de turismo já têm netos e até bisnetos, e portanto, tudo é feito pensando principalmente NELES – os avozinhos.
Pra sua referência, a gente viajou pela Royal Caribbean, uma companhia americana com altos padrões de qualidade. Com isso quero dizer que se você vai viajar por outra (pelo menos uma viagem longa como essa), já sabe mais ou menos que não dá pra esperar muito melhor que o que eu vou contar.
1. Idade
O mínimo de idade requerido são 6 meses, apesar que a gente não viu nenhum bebê tão novinho lá. O mais novo tinha 15 meses e haviam somente 5 famílias com crianças pequenas, entre um total de mais de 1600 tripulantes.
2. Check-in
Igualzinho ao que a gente faz no avião, com a diferença que todo mundo que te atende é super-ultra simpático. Ah, e também não há limite de bagagem. Acho que o limite é o quanto cabe no seu quarto. Assim, você entrega as malas no check-in e elas são levadas ao seu quarto algumas horas depois. Por isso recomendam separar uma bolsa de mão com pertences pra usar até que elas cheguem.
3. Leve fraldas suficientes
No navio tem as tipicas lojas de duty free com souvenirs, jóias, bebidas, perfumes e roupas pra adultos. Ítens de emergência como pasta dental, escova e barbeador ficam numa mini-prateleira numa das lojas.
Assim, que atenção: no navio NÃO se encontra fralda, nem fórmula, creminho pra assadura ou qualquer roupa de criança. Nada disso, hein? Então, tem que levar o suficiente pra viagem toda.
E foi o que a gente fez. Por isso tivemos que estragar nossa entrada cheia de glamour (rs) com aquelas sacolas do WalMart cheias de fraldas pros 10 dias de viagem mais 3 (porque sempre nos preparamos pro pior!).
4. Comida
É espetacular. Tem de tudo o que você imagina e mais. Neste navio que viajamos havia um restaurante fino (e que precisava de reserva) com as três refeições a la carte, e um outro, mais adequado pra quem usa Sun Lorran e tem filho, que ficava aberto o dia todo servindo café-da-manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e janta, tudo buffet.
Todo dia tinha umas trinta variedades de pratos novos e podíamos encontrar sopas, carnes, peixes, arroz, massas, vegetais, saladas, pães, frutas, queijos e sobremesas. Tinha opções pra vegetarianos e quem não come glúten também. Pra quem tem filho que já come uma grande variedade de comidas não encontra problema, só tem que ter cuidado e provar antes, pois alguns pratos são apimentados.
Já pra bebês que só comem papinha, acho que dá pra se virar com as sopas ou improvisar e amassar alguns vegetais. Eu não tenho certeza, mas também deve ser possível pedir comida especial pra eles.
As únicas coisas que não gostei foram os sucos que pareciam feitos com pozinho Ki-suco e o iogurte com gosto de total-industrializado (muito doce, cor e sabor artificiais demais). E o Nic que não vive sem iogurte (Mais gute, mami!) teve que comer esse mesmo.
5. Área de lazer

Bom, chegamos ao momento “Oh, my god!” do post. O meu grande choque, e possivelmente o seu também, querida mamãe que agora lê estas palavras e sonha em levar seu filho pequeno a um cruzeiro, foi saber que o Nicolas não poderia entrar em NENHUMA piscina, fosse ela de adulto ou criança, nem jacuzzi, mesmo que (obviamente) acompanhado pelos pais, durante todos os dias do cruzeiro.
Rá!
Esperava por essa? Nem eu.
Pois só fui descobrir quando eu e Nic já estávamos nos deliciando numa banheira de água quente ao ar livre, esperando o papai que tinha ido buscar as toalhas pra gente. Foi aí que de repente, sinto um tapinha no ombro, seguido por um “Excuse-me madame.” Já viu, né? Tapinha no ombro nunca é bom.
No que eu me viro, o homem me explica, que de acordo com as leis americanas, crianças que não estejam treinadas a usar o banheiro sozinhas, não podem entrar nas piscinas, mesmo usando aquelas fraldas próprias pra natação (Sabe, mamãe? Aquelas com o desenho do Nemo com a qual você sempre levou seu filho pra nadar e nunca teve problema? Pois é, pode não.)
Sem acreditar, ainda tentei barganhar “Moço, moço, pelamordedeus, ele como toda criança AMA uma piscina. Como vocês podem privar uma criança de entrar na piscina num lugar que SÓ TEM piscina e por tantos dias? Que tipo de férias ele e nós vamos ter?” Mas ele continuou irredutível, repetindo que são as regras e bla-bla-bla.
Fiquei realmente chocada, revoltada, estarrecida e triste com essa notícia. E o mais bizarro é que no navio havia uma americana com uma menininha na mesma situação e disse que nos EUA sempre frequentou piscinas sem problema com a filha. Não dava pra entender.
Assim, não tinha outra coisa a fazer senão pesquisar outras opções de lazer pro Nicolas e levei outro choque. A única sala destinada à crianças só aceitava maiores de 3 anos!
Então percorremos o navio todo sem acreditar. Havia Cassino – seria ótimo pro Nic apertar todos os botões que quisesse, mas, claro, proibido pra menores. Solarium – piscinas cobertas, sauna e academia, restrito a adultos. Teatro – somente shows noturnos. Biblioteca – com um Shhhhh de todo tamanho na porta. Sala do Silêncio Absoluto – (não acreditei quando vi isso) proibida a entrada de pessoas com cordas vocais, imagino. Salão de dança – adultos somente. Pista de corrida no último andar – adultos. Salão de bingo e quebra-cabeças – adultos.

A gente no cassino em horário de não funcionamento. Mesmo assim fomos expulsos de lá.
Assim entendemos porque haviam tão poucas crianças no navio… Em todos os cantos, não havia um só espaço, nem sequer uma salinha pequena, um escorregador ou balanço, ou então uma piscininha mesmo que minúscula só pros babies. Uma vergonha!!!
E ao reclamar, viemos a saber que um encontro vapt-vupt de 45 minutos ocorria toda manhã num espaço improvisado e temporário pros excluidos brincarem com brinquedos da Fisher-Price. Fomos uma vez, nem foi tão divertido, e depois o fuso horário foi mudando e não conseguimos mais acompanhar.
Daí Nic passou os 10 dias brincando com uns brinquedos que eles emprestaram (pelo menos isso!), subindo e descendo escadas, entrando e saindo de elevadores e correndo ao redor das piscinas.

E a gente atrás…
Bom, quanto às piscinas, no final das contas, choveu e fez frio a maior parte dos dias, então o fato dele não poder usa-las acabou não fazendo tanta diferença. Que coisa hein?

6. Fuso horário
Como nessa viagem cruzamos diferentes fusos, o horário foi ajustado 1 hora a cada 2 dias. A mudança ocorria ao meio-dia, quanto tínhamos que adiantar os relógios. Alguns dias era difícil acompanhar a diferença, mas no final chegamos em Vancouver sem nenhum jet lag.
7. Acomodações
O navio tem vários decks (andares) e quanto mais alto, mais caro o quarto e maior a janela com vista pro mar. E tem vários corredores bem compridos, que toda vez que eu passava por eles me lembrava do Titanic.
Bom, se você é do tipo que usa Saint Laurent, com certeza vai ter um quarto bem mais espaçoso, com banheira e roupões pra usar (além de outras coisas que nem sei). A gente, ficou em um de tamanho bem razoável. São duas camas de solteiro juntas que formam uma cama de tamanho entre Queen e King (o Nic dormiu com a gente numa boa). Eles também emprestam um berço portátil, mas com o Nic, já viu né?

No mais, tem um guarda-roupa que cabe bastante coisa, um sofazinho, uma televisão pequeninha e que não vira, com programação meio restrita e repetitiva (mas tudo bem), vários armários e gavetas aproveitando todos os espaços existentes e um banheiro pequeno sem banheira.
E graças à dica salvadora da Camila do Murilo, eu, que já esperava que seria complicado dar banho no Nic no navio, comprei uma banheirinha inflável no WalMart por 5,50 dólares! Inclusive, íamos levar essa piscininha lá pra cima, pra mostrar que não precisávamos das piscinas deles não, que a gente tinha a nossa, mas como ventava tanto, ele se divertiu no quarto mesmo.

8. Atendimento médico e náuseas
Há serviços médicos disponíveis no navio, apesar que por um preço nada camarada. Felizmente nenhum de nós precisou usar, mas é sempre bom saber que existe.
Já náuseas, eu tive muita, mas só no primeiro dia que viajamos o dia todo em alto mar. O navio balançou muito e várias vezes tínhamos que caminhar escorando nos corrimões… Parecíamos bêbados andando… Mas daí tomei um remedinho pra enjoos e nos próximos dias não senti mais nada.
9. Acessos e segurança
Todo o navio tem acesso pra cadeira de rodas ou carrinho de bebê, por elevador ou rampas.
Quanto à segurança, no primeiro dia tem um treinamento rápido de como proceder caso necessitemos evacuar o navio. Há coletes salva vidas nos quartos (adultos e crianças) e barcos pra todo mundo.
10. Baleias e golfinhos
Essa é pra minha irmã que ficou toda entusiasmada com idéia de ver esses animais do navio. Patti, ou a gente não cruzou a rota desses seres encantadores, ou estávamos ocupados demais correndo atrás do Nic, porque não vimos nada.
11. Internet
Tem, mas é super-ultra cara. Melhor usar só em caso de real necessidade.
12. Sono
Ótimo! Muito bom ir pra cama vendo a luz da lua refletindo no mar, dormir embalado pelo balanço ritmico do navio e acordar com a luz do sol e vendo aquela água tão azul e infinita…

13. Serviços e gorjeta
Tem serviço de quarto por 24 horas, mas o menu é fixo e limitado (não dá pra pedir a mesma coisa que eles servem nos restaurantes por exemplo).
Gorjeta é um negócio meio pessoal, mas no navio eles recomendam deixar pra dar a gorjeta toda no último dia e fazem um cálculo de 3,50 dólares por dia, por pessoa. Eu achei meio caro, mas o atendimento é realmente de primeira. Os garçons, são SUPER prestativos com quem tem criança e os camareiros têm habilidades especiais com as toalhas, que fez a alegria do Nic que cada dia era surpreendido com um animal diferente.

Em geral são sempre os mesmos pra te atender, mas se variar, dá pra dar a gorjeta pra administração e eles distribuem pra todo mundo igualitariamente.
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E pra terminar, a dica é escolher com cuidado, ler as letras miúdas sobre os serviços e opções de lazer no cruzeiro antes de comprar as passagens. No nosso caso, apesar de tudo, não nos arrependemos pois conseguimos descansar e o Nic aproveitou bem ao seu jeito.
Mas sem dúvida o divertimento é maior se os filhos já forem maiores e puderem participar de grande parte das atividades.
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E se você já teve experiências com outras companhias de cruzeiro, por favor, deixe seu comentário. Estou bem interessada em saber como foi.