Quando eu era pequena rachava de rir da minha mãe porque ela nunca conseguia acertar os nomes dos filhos na hora de chamar um. Passava por todos os nomes da família, dos irmãos dela, da vizinha, dos gatos, e quando ela finalmente acertava, a criança já estava longe.
Depois de um tempo ela foi ficando mais espertinha. Não que ela tenha passado a acertar de primeira, mas pelo menos começou a falar somente a primeira sílaba de cada nome. Rei-Pá-Lu, por exemplo, era eu.
Por sorte não tenho uma mãe vingativa. Pois se ela fosse, estaria hoje me dizendo “ora, ora, ora, veja QUEM está confundindo os nomes dos filhos agora…”.
Pra vocês terem uma idéia, tem dia que estou tão doidona, mas tão doidona, que chamo o Nic de Lily, a Lily de Nic, o Nic de Lic, a Lily de Lícolas, o Nicolas de Nily, a Lily de Nicoly e ainda quase esqueço meu nome.
Grave.
Pois a coisa ficou ainda mais grave na semana passada. Tenta imaginar uma mãe já desparafusada, desta vez sozinha com duas crianças por 9 dias (primeira vez de várias). Juro, não sei como terminamos todos vivos, só sei que no último dia, eu já não lembrava quando tinha trocado a fralda da Lily, se o Nicolas já tinha tomado banho ou se eu tinha almoçado. E ainda me pegava falando coisas do tipo “Lily, termina logo de vestir essa cueca que ainda tô dando mamá pro Nic”.
E Nicolas gargalhava.
Fácil não, viu gente. Perrengaço essa de não ter ninguém pra quem passar a bola, pra dividir os filhos na hora de comer, dar banho, colocar pra dormir, pra se alternar de madrugada na hora de checar o filho que tá tossindo ou chorando com pesadelos no outro quarto e pegar a bebezinha no colo mil vezes porque ela tá se contorcendo e não consegue dormir, ninguém pra conversar no final do dia, ninguém pra poder dizer “me ajuda aqui que vou tomar um banho”.
Pra sobreviver, tive que organizar ainda mais minha já (cof, cof) organizada rotina e focar no básico, sem esperar fazer nem um tiquinho a mais que o estritamente necessário. Claro que com um pouco de disciplina, tudo tava parecendo fácil demais, né? Então dona Lily resolveu adicionar um fator pra randomizar um pouco nosso dia: o fator lenga-lenga bizarro. Prestenção: Lily que era bebê venerado por todos por dormir em qualquer lugar e por longas horas, cansou. “Boriiiiing, pensou ela.” Entao num belo dia decidiu virar uma high need baby, passando a dormir SOMENTE e tao somente no colo durante o dia e fazendo muita, mas muita hora mesmo pra dormir à noite.
Vou contar o que que ela faz, amiguinhos.
TODOS os dias, exatamente às 18:30, Lily chora por 5 a 15 minutos no colo, capota de cansaço e depois de 30 minutos exatos, acorda revigorada, pronta pra brincar e fazer aqueles sons mais que bonitinhos que ela tem aprendido. Passados 10 minutos, ela está cansada outra vez. Então dorme no colo amorosamente embalada, porém, a cada vez que é colocada na cama dona Liloca acorda, seja rindo ou chorando, mas acorda. Esse lenga-lenga dura de 2 a 3 HORAS, TODO santo dia. E como lá pelas 21 eu já estou DOIDA pra dormir, peno muito pra conseguir aguentar firme sem pedir penico ate 22 ou 22:30.
Assim que, estando só eu e não podendo me dedicar somente à ela no período de lenga-lenga, tenho que me apressar pra fazer tudo antes: tomar meu banho (ou não), dar banho nela (ou não), dar banho no Nic (ou nao), dar janta pro Nic que demora horrores pra comer (quando come) e deixar tudo preparado pra gente ir dormir. Ou seja, antes das 18:30, amiguinhos, já estamos todos de pijama e pantufas. Daí, durante o período bizarro, tenho que aproveitar as brechas (se existirem) pra dar um leite ou iogurte pro Nic, escovar os dentes dele, contar historinha, levá-lo ao banheiro e colocá-lo pra dormir até as 20h, que é quando ele já está capotando de sono. Tudo isso sem mostrar que estou com pressa, pra ele se sentir especial.
Durante a madrugada, dona Lily dorme um pouco melhor e acorda pra mamar a cada 2 ou 3 horas, mas algumas noites o sono dela é super agitado e ela acorda muito mais. E como sofremos por 15 meses com o refluxo do Nic, às vezes suspeito que ela também possa estar ficando refluxenta. Espero tirar a duvida no próximo mês, quando finalmente conseguimos consulta com um pediatra. Conto depois.
As horas do almoço também são complicadas. Em geral demoro 3 horas entre fazer o almoço, dar comida pro Nic e comer, sem contar arrumar a cozinha. E cada dia acontece algo diferente pra tornar nossos dias únicos e emocionantes. Como o dia que Nic caiu e machucou a boca, Lily chorava sentada na cadeirinha e a comida começou a queimar no fogão. Durante 5 minutos eu ouvia a nada harmoniosa sinfonia composta pelo choro de duas crianças, uma musiquinha infantil vinda da cadeirinha de balanço e o escandaloso alarme do detector de fumaça que disparou.
Enfim. Um show.
E assim tem sido. Definitivamente virei mamãe canguru durante o dia, carregando Lily pra cima e pra baixo e felizmente contando com a colaboração do Nic, que nunca se importou de me ver com ela o tempo todo. Claro, existem as crises “veladas” de ciúme, como as escapadas de xixi que têm ficado mais frequentes e o fato dele só aceitar comer se eu der na boca (já que ele já comia sozinho). Também foi agora que desenvolvi o método do grito sussurrado, entre-dentes, sabe? “Nicolas, para de fazer barulho, por favor! Sua irmã demorou pra dormir!”. Nem sempre funciona, mas tá valendo.
No mais, só acho que não enlouqueci mais nesses dias sem marido porque recebi muita ajuda, aqui e ali. A começar por todos os meus vizinhos que são gente fina demais. Teve gente que se ofereceu pra ir ao supermercado pra mim, gente que me trouxe comida quentinha pra eu poder tirar uma folga da cozinha, gente que ficou com a Lily pra eu poder passar um tempo só com o Nic. E tiveram os amigos, que me escreveram email perguntando se eu estava viva, amigos que vieram passar um dia comigo só pra me fazer companhia e me ajudar a carregar Liloca, gente que escreveu post especial contando da sua experiência sozinha com duas crianças. E quando mesmo assim tudo parecia muito difícil, descobri que o melhor remédio era sair pra caminhar. Um dia caminhamos por 2 horas seguidas, entrando e saindo de trilhas, e claro, torcendo pra não darmos de cara com um urso!
Bom, e agora que marido voltou, tudo ficou melhor outra vez. Só o que continua é a lenga-lenga bizarro da Lily e claro, a trocação de nomes. E não pensem que estou sozinha nessa. Outro dia mesmo escutei o Rafa chamando “Líiiiiiiiiicolas!!!!”.
Tá achando que só mãe é doida?







