O Rafa, meu querido marido, é conhecido, entre outras coisas, por sua até-bem-intencionada-porém-brutal honestidade ao emitir sua opinião, principalmente no que tange a visuais femininos.
Não que ele seja um expert no assunto, não mesmo. Mas sabe como nós mulheres podemos ser susceptíveis a opiniões alheias sobre nossa aparência, né?
A mãe do Rafa e suas três irmãs devem conhecer bem esse lado dele. Afinal, qual de nós já não demorou meses escolhendo cuidadosamente aquele vestido pro evento do ano, mas sem querer optar por aquele-modelito-básico-que-não-tem-erro, resolve ousar só um pouquinho e escolher um vestido exuberante e vaporoso, algo um pouco diferente do seu estilo usual?
O dia chega, ela se veste e se sente outra mulher, deslumbrante… Ela tem quase certeza que todo mundo vai aprovar a escolha do vestido, que realça sua beleza de forma especial. Dá o último retoque na maquiagem, calça aquela sandália que só reforça a imagem de “essa-sabe-o-que-está-fazendo”, pega sua bolsa e sai toda confiante e poderosa do quarto, quando dá de cara com o Rafa.
Esse, dá um pulo pra trás ao vê-la e sem pensar duas vezes, solta:
- Credo!!! – sua interjeição clássica – Tem certeza que você vai com esse vestido?
- Quê? Qual o problema? – pergunta ela, mesmo sem ter certeza de que quer mesmo ouvir a resposta.
- Essa cor é muuuuuito feia, muito arregalada…
- Que isso, Rafael, essa cor é fashion! É a cor desse verão, todo mundo tá usando. Você não sabe de nada, tá? – reage ela rapidamente tentando se desvencilhar dele e ir logo pro carro enquanto sua auto-confiança ainda permanece intacta.
- Fashion… Pois esse negócio de fashion tá é por fora, tem que usar o que combina com você! – insiste ele mesmo com o risco de levar uma sapatada na cabeça – E olha essa gola estranha! Credo! E esse babado aqui? Melhor se você tivesse arrancado ele fora…
Pronto, a pulga que já estava atrás da orelha agora virou um hipopótamo.
- Porque? Tá feio? Mas esse babado é lindo. E a vendedora me garantiu que ficou ótimo em mim.
- Pois eu só tô querendo te ajudar. Se não fosse esse babado estranho e essa cor… aliás, que cor que é essa? é amarelo, verde? sei lá, sou daltônico mesmo… Mas até que esse vestido nem seria tão feio… Mas vamos assim mesmo que a gente já tá atrasado. Olha, pelo menos seu cabelo tá bonito desse jeito!
Pois nesse ponto, a pobre vítima já não escuta mais nada. Com seu rímel borrado pelas lágrimas que teimam em cair, com ódio profundo daquela criatura que já tinha conseguido arruinar a sua tão aguardada festa, agora ela tenta, sem a mínima esperança, encontrar um outro vestido de última hora, que lhe faça sentir tão linda e especial como há poucos minutos atrás tinha ousado se sentir.
* * *
Cruel, não é? Pois saiba que pode ser pior.
Imagina agora que ao invés de ousar com babados e cores vivas, a mesma mulher resolva seguir a linha tradicional e por aquele vestido classudo maravilhoso pro casamento da melhor amiga.
O Rafa a olha de cima a baixo, pede pra ela dar uma voltinha e diz:
- Esse sim, é um vestido bem bonito…
Ela sorri com deleite.
- … pena que não fica bem em você – estraçalha ele, ainda que querendo ajudar, acredite.
Pois pronto. Não só acabou com a saída, como jogou a auto-estima da pobre vitima na lama pra sempre.
- Você tá querendo dizer que o vestido é bonito mas meu corpo não ajuda? – tenta clarificar ela, ainda que esperando bem no íntimo uma retificação salvadora do tipo “não foi bem isso que eu quis dizer, agora tô vendo aqui que esse vestido não tem mesmo um bom corte na cintura”.
Mas a sensibilidade não toca seu coração e ele ainda lava as mãos soltando sua frase clássica:
- Só tava querendo ajudar, mas se você que ir vestida assim, então vamos logo que tá na hora.
* * *
Agora, não pense que ele ataca somente as mulheres próximas com suas críticas não. Sobra pra qualquer uma, até mesmo no momento mais desumano de todos: durante o próprio evento.
Foi o que aconteceu a uma amiga nossa, durante sua formatura de faculdade. Pobre MT… nunca vou esquecer uma figura tão radiante e feliz se esmorecendo daquela forma.
Ela estava linda, com sua delicadeza de sempre, em um vestido maravilhoso naquele corpinho de violão. O penteado, irretocável. Mas pecou, não ao carregar um pouco demais sua maquiagem, mas ao passar a menos de 5 metros de distância do Rafa com a maquiagem carregada.
- Lu e Rafa, que bom que vocês vieram!
- Parabéns pela formatura! Você está lindíssima! – digo eu.
- Parabéns! Que festa bacana essa! – diz o Rafa já dobrando um pouco os joelhos e analisando o rosto dela por um ângulo e luz melhores. Até que:
- Credo! – lasca ele – o que que aconteceu com a sua cara? Tá meio… alaranjada… totalmente diferente do seu pescoço que tá… branco…
Nisso, o sorriso da nossa amiga murchou, ela pediu licença e desapareceu. Procuramos a pobrezinha por toda parte, mas nada. Durante a busca, encontramos a Carol, uma outra amiga pra quem contei a história.
Ela se recusava a acreditar que poderia existir, no mundo todo, alguém tão insensível assim como o Rafa. Olhou nos olhos dele e falou brava:
- Rafael, coitada dessa menina! Sabe onde ela deve estar agora? Chorando lá atrás sozinha na beira da piscina. E sabe porque? Por insensibilidade sua! Deixa eu te falar uma coisa. Sempre que você ver uma mulher, mesmo que o batom dela esteja todo borrado assim ó (ela faz o movimento) ao redor da boca, e ainda que esteja parecendo o Bozo, põe na sua cabeça que ela está linda, maravilhosa, perfeita! Principalmente se é o dia da formatura dela, entendeu?
- Mas a cara dela estava esquisita demais. Eu falei porque de repente ela podia dar uma lavadinha no rosto…
- Entendeu, Rafael?
- Entendi.
* * *
Entendeu nada, porque ele continuou fazendo isso por um bom tempo ainda. Mas já parou, finalmente, depois da gente muito conversar sobre aquele negócio do Bozo e tal. (Aliás, ele tá aqui agora do meu lado pra ter certeza de eu tô escrevendo que ele realmente já parou com isso.) Parou mesmo, viu gente!!! (Agora só usa sua “sutileza” comigo.) Pô Rafa, é verdade…
* * *
Mas então, depois de eu te contar tudo isso, você veja bem a minha sorte.
Tava eu ontem, me arrumando pra sair com o Nicolas e visto uma calça jeans com uma bata que eu amo. Nicolas, agora com quase 20 meses, tá com a mania de antes da gente sair fazer um checagem geral. Ele olha pra mim de baixo pra cima e fala apontando: sapato, calça, busa, bolsa, cabeio.
Pois ni que eu visto esta bata, ele vem e me fala:
- Sapato, calça, sacoia, bolsa, cabeio.
Sim, você não se enganou. O Nicolas chamou minha linda e amada bata de SACOLA.
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Eu tô feita ou não tô?
* * *
Em tempo: Pra não ser injusta com o Rafa, devo adicionar que essa sinceridade toda dele vem de uma virtude muito maior que tudo isso: sua transparência e real honestidade como pessoa. Eu contei essas historias sobre ele porque o Nic, com sua espetacular lógica infantil, me fez lembrar muito delas (e rir demais). Mas não posso deixar de completar que o Rafa tem a incrivel habilidade de ser brutalmente “sutil” nesses detalhes, mas ainda muito, muito doce em todos os outros aspectos da vida.
