O lado cômico da maternidade

A viagem ao Brasil – com glossário

10 Comentários

Viagens de avião com criança são no mínimo tensas, e sempre carregam em si um grande potencial pra se tornarem traumáticas, independente do preparo.

A primeira viagem com o Nicolas foi Australia-Brasil, ida e volta, e eu voltei com a certeza de que não teria santo nenhum que me convenceria a colocar os pés num avião de novo nos próximos 15 anos.

Pois um ano depois, estava eu, embarcando numa viagem de um mês e meio com a família entre Austrália e Canadá envolvendo, não somente um, mas múltiplos voos. Pois dizer que fiquei traumatizada seria eufemismo e daí jurei que jamais, em hipótese alguma na vida, voltaria a viajar para terras longínquas de novo.

Três meses depois, estávamos embarcando pro Brasil, de férias.

* * *

Entender como meu cérebro funciona pra tomar certas decisões, isso você jamais entenderá, posto que nem eu mesma entendo. Mas com o seguinte glossário, você terá grandes chances de entender pelo menos, como foi nossa viagem de avião pro Brasil.

Glossário prático em desordem alfabética


american airlines – companhia aérea com aviões velhos, procedimentos esdrúxulos e intermináveis de segurança, e horríveis fileiras de cinco assentos.

lactosice noturna crônica – fenômeno iniciado há um mês e meio, que remete aos tempos idos do gugu-dadá, no qual o Nicolas quer tomar leite a cada duas horas toda madrugada (ressalva: ele está com quase 2 anos).

monstrinho – estado ranzinza,  chiliquento, chechelento e chororô que o Nic atinge sob circunstâncias específicas (e raras, devo acrescentar).

hora monstrenguenta – circunstância na qual o Nicolas dá lugar ao monstrinho. Ocorre sempre que seu horário limite de ir pra cama é ultrapassado. Mas atenção: tal metamorfose somente acontece quando a criança citada se encontra em lugares confinados e/ou entediantes, já que em lugares abertos e/ou divertidos o efeito é contrário (como se ele recebesse uma dose extra de energia mega-power, sabe?).

E a monstrenguice também pode ocorrer quando as doses de leite na madrugada são negadas. Neste caso, o choro pode atingir níveis decibélicos bastante indesejados.

ataque pirirítico – requerimento intestinal abrupto e intenso

chamadas ao juca – vômito e mal-estar provocados pelo movimento de turbulência da aeronave

assentos confinados (figura 01)- os três assentos do meio da horrível fileira de cinco, que restringem idas ao banheiro, esticadas de pernas ou voltinhas com a cria monstrenguenta sempre que precisar.

 

Figura 01 - esquema mostrando os assentos confinados em vermelho

 

 

* * *

Pois apesar da american airlines, do voo marcado justamente pra hora monstrenguenta (que culminou no Nic relutando pra dormir e chorando por uma hora direta), dos assentos confinados, da lactosice noturna crônica que atacou de hora em hora, sobrevivemos todos ao voo da ida.

Já a volta, prometia ser uma mera repetição, uma vez que os horários dos voos e escalas seriam praticamente os mesmos. Somente uma coisa seria diferente…

O Rafa, como só conseguiu duas semanas de férias, teve que fazer uma de suas viagens de trabalho ao Peru, enquanto eu continuei no Brasil. E pra evitar que eu viajasse todo o caminho de volta ao Canadá sozinha com o Nic, combinamos de nos encontrar em SP e daí seguirmos juntos de lá.

Perfeito, né? É, se não fosse o Rafa ter perdido o voo de Lima pra SP…

Abalada, descabelada e faltando pelo menos dois braços a mais pra empurrar tantas malas mais carrinho pelo aeroporto afora, tentei remarcar nossos voos pro dia seguinte. A atendente checa daqui, checa dali e nada. Sem lugares nos voos pelos próximos três dias.

Pois pensando no tanto de coisas que eu tinha pra fazer em Vancouver, pensei que três dias seria tempo demais pra esperar. Respirei fundo e decidi  que eu teria que encarar aquela viagem sozinha mesmo, afinal seria mais fácil pro Rafa conseguir um só lugar num outro voo que três.

Mas gente, ainda bem que Deus protege os insanos mais que nenhuma outra pessoa nesse mundo. Por sorte, fui impedida de viajar já que eu não tinha comigo uma tal de autorização do pai autenticada pra sair do país com o Nicolas…

* * *

E foi assim que o Rafa chegou a SP e ali passamos mais alguns dias à espera do próximo voo disponível. E como choveu, não conseguimos passear, mas recebemos a querida visita da Raquel e do Elves (grávidos do Pedro) e que moram por aquelas bandas…

* * *

E hoje, só fico aqui imaginando…

… se eu tivesse mesmo viajado sozinha, e passado por todas aquelas chamadas ao juca e ataque pirirítico sem precedentes que eu passei no voo de volta, ainda mais estando a gente novamente em assentos confinados… (teria sido the horror! the horror! – mais ainda do que foi).

Daí sim, eu com certeza teria voltado dizendo que pra viajar de novo, só quando tornarem realidade o tal do teletransporte (indolor)…

Pois por agora, só me limito a lembrar como foi bom estar no Brasil…   A única coisa difícil de entender é como é possível ter voltado com mais saudades do que quando fomos… A gente vai pra matar as saudades, mas acaba se enchendo de mais…

E o que faz a gente se encher dessa saudade sem limites é também a razão do que nos faz capaz de encarar essas viagens sempre… seja ela com ou sem criança, com ou sem monstrenguices, com ou sem piriri…

Pois no final das contas sempre vale a pena.

* * *

Nos próximos posts vou contando mais sobre a gente no Brasil.

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10 pensamentos sobre “A viagem ao Brasil – com glossário

  1. Ô Lu…
    Se eu soubesse que vc estava aqui em SP, teria te encontrado…
    da proxima vez me avisa, viu?!
    Que aventura heim, amiga?!
    Eu me divirto com suas epopéias…rs, ams sei o quanto na hora é estressante…mas tudo passa, ne? E ficam as recordações!
    Mil bjks

    http://blogdaclauo.blogspot.com/

  2. Lu do céu!

    Que novela essas viagens de avião amiga!!!!! Eu tambem não gosto nada da AA… Nunca vi atendimento pior na minha vida. E as filas na area de segurança, aquele negocio de tirar sapato e inspeções sem fim? Com criança então, é ainda pior ne? Agora esses assentos aí, ninguem merece mesmo… rsrsrs mas gostei do seu desenho, viu? mostrou muito bem a situação!

    E quanto a vc ter passado mal na volta, deve ter sido bem complicado, mas que bom que vcs chegaram bem de volta ao lar… A partir de agora, tudo se encaixará na rotina de sempre e ate o sono do Nicolas vai melhorar, você vai ver.

    Um grande beijo e aproveite o outono dai, que deve ser lindo!

    C.

  3. hahahahaha

    Esse glossário tá otimo, Lu!

    Bem vinda de volta!

    Um abraço pra vocês

  4. Viagem com criança/bebê é a coisa mais complexa que existe no mundo inteiro e além!

    A primeira viagem que fiz com a Juh foi maravilhosa: ela não chorou uma vez (nem em casa ela chorava tão pouco).
    Mas a segunda foi um deus-nos-acuda-e-nos-salve-e-nos-tire-daqui! Ela foi o trajeto INTEIRO chorando. Foram 19 horas de choro, vômitos, cocôs, pitis, e tudo mais que você possa imaginar. Juro que nessa viagem eu entendi COMPLETAMENTE porque não fazem janelinhas em avião. hahahaha Meu sonho era me atirar em voo livre, porque pior do que estava não tinha como ficar. Ainda bem que as pessoas na volta foram compreensíveis e mudaram de assento. hahahahah
    Beijão!

  5. O meu tb tem quase 2 anos. E a primeira viagem foi de ônibus pro Rio. 4 horas dentro do ônibus. Mas foi mais tranquila que o esperado (e olha que o estado monstrenguentos do meu não são tão raros! rs). Depois ele foi pra Recife com o pai de avião. Encontrei-me com eles uns 3 dias depois. E a volta foi relativamente tranquila, embora ele não tenha dormido nem um segundo nas 3 horas de vôo. Se minha experiência fosse negativa, teria medo de repetir. Mas meu baby até que me surpreendeu!
    Bjs.

  6. Adorei o post! Muito engraçado, apesar de trágico!
    Toda a dificuldade de viajar com crianças aumenta 10X quando se trata da American, odeio!
    Bjs

  7. putz, lu!!!
    e o rafa nem pra perder o vôo lima-RIO, pra mó da gente bater aquele papinho de mãe?
    ê, seu rafa!
    sobre viagens de avião com os pequenos, the horror, my friend, the horror.
    ah! e o esquema mostrando os assentos confinados em vermelho PRECISA ser enviado pro presidente dos sindicatos de cias aéreas, gente! eles precisam saber o que a gente passa nessa vida confinada!
    beijo, welcome back!

  8. Pingback: Exclusivo Castelo de Caras « Nicolando por aí

  9. Oi Lu!!!!!!!!!

    É, seria certamente trágicoe não fosse suuuuuuuuuuuper cômico seu jeito de contar como são as viagens de avião com criança.
    Mas a despeito de tudo isso, nós aqui ficamos suuuuuuuuuuper felizes ao saber que mesmo com as suas experências sempre quase traumáticas, vcs ainda encontram forças para encarar isso sempre que dá pra voltar às origens e dar a chance de matarmos as saudades, que afinal são mútuas.

    E falando nela, me despeço, já com muitas saudades.
    Bjo

  10. Pingback: Quando viajar com crianças é só uma questão de perspectiva |

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