O lado cômico da maternidade


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O visitante indesejável

– Toc, toc, toc!
– Quem é?! Quem é a essa hora?- pergunto com uma super voz de sono
– É o Terrible Twos.
– Terrible Twos??? Mas você não tá chegando um pouco tarde demais não, meu senhor? Já são quase dois anos e 6 meses!
– Desculpe, minha senhora, é que tinha criança demais pra embirrar… Nunca tive tanto trabalho na vida quanto esse ano.
– Ah, não. Pois então perdeu a viagem Seu Terrible Twos. Pode voltar pra casa. Se não chegou antes o problema é seu, agora você não entra mais não.
– Desculpe, mas tecnicamente seu filho ainda está no “twos”, né não? Dá licença que eu tenho que recuperar meu tempo perdido.

E foi assim que ele entrou. Bruto, rude e sem educação. E como uma avalanche destrambelhou aquele ser doce, fofinho e tão incrivelmente comportado que eu tinha aqui.

* * *

Gente, eu sei, vocês me avisaram que seria difícil. Tenho lido há meses e meses e meses histórias de arrepiar até lobisomem. Li até sobre criança que foi levada por alienígenas – os quais descaradamente deixaram uma cópia birrenta no lugar achando que os pais não fossem notar a diferença.  The horror, my friends, the horror! Agora sim, entendo o que têm passado e me solidarizo MUITO com todas vocês, minhas queridas. De coração.

E claro, mãe nerd que sou, depois de ler tantos casos horríveis – mesmo achando que isso nunca fosse acontecer aqui em casa (vide a anjice que aqui costumava habitar, como eu poderia desconfiar???) -, acabei devorando tudo o que há no mercado sobre birras – pra me preparar pra uma eventualidade, né? Li Besame Mucho (Carlos González), The no-cry discipline solution (Elizabeth Pantley), Inteligência Emocional e a Arte de Educar Nossos Filhos (Dr. John Gottman), A criança mais feliz do pedaço (Dr. Harvey Karp) e claro, a série sobre birras da Flávia. Li tudo, gente, e juro – me sentia super preparada.

Mas vou contar – tô preparada não! (Viu, , no fundo, a gente nunca tá preparada pra nada – nem pra desfralde, nem pras brirras, nem pra tirar a chupeta, na-da!).

E tem mais. Cadê as birras clássicas das quais eu tanto li??? Ninguém me contou que seria um negócio descabido não, gente! Achei que fosse ser um treco no mínimo razoável, com o qual eu pudesse me identificar, agir de forma empática e aplicar os tantos métodos que aprendi.

Quer um exemplo?

Imagine a corriqueira e conhecida situação na qual seu filho brinca alegremente com seus brinquedos no quintal, mas é chegada a hora do banho (né, ?). Você o chama com delicadeza: “tesouro! hora do banho, querido!”, ele responde com aquela voz birrentinha “nãããaaaaaaaaaoooooooooo! banho naaaaaaoooooo! quer brincaaaaaaar!”. E daí é a chance da mãe colocar em prática toda a sua ciência e amor acumulados pra este momento. Ela  para um segundo e recupera seus arquivos mentais.

– Bom, de acordo com a Pantley, devemos antes de mais nada escolher nossas batalhas com os pequenos (é necessário dizer “não” pra tudo?). Se nesse momento ele sim, precisar parar de brincar e tomar seu banho, ela recomenda avisar a criança com certa antecendencia pra que ela se prepare pro tal evento banhístico.
– González sugere julgar se ela está tendo suficientes momentos para brincar ou se os limites impostos a ela não estão rígidos demais. E pra convencer-la a largar os brinquedos e tomar banho, talvez propor uma brincadeira no caminho, tudo com muito amor e paciência.
– Os textos da Flávia dizem pra mantermos a calma e acessármos a situação com respeito, já que não querer trocar a brincadeira pela banho é uma reação normal e daí tentar uma negociação do tipo “que tal se depois do banho lermos um livrinho?”
– De acordo com Dr. Gottman, diante de qualquer situação de raiva, tristeza ou frustração, escute com empatia o que a criança tem pra dizer, valide seus sentimentos, dê nome ao que ela está sentindo e ajude-a a resolver o problema, propor um acordo, um combinado. “Meu querido, eu sei o que você está passando. Você está se sentindo frustrado porque quer continuar brincando, não é? Mamãe também às vezes quer passar horas no computador lendo os blogs das amigas, mas chega uma hora que ela tem que parar pra fazer outras coisas. E agora você tem que tomar banho. Que tal se a gente levar um desses carrinhos pra tomar banho com você?”
– Ou ainda, Dr. Karp diz que no momento de birra, a criança está lidando com uma tempestade de emoções e não está apta a entender nenhuma explicação racional. Ele recomenda escutar o que a criança tem pra falar primeiro e depois repetir tudo o que ela disse enfatizando as principais palavras  pra mostrar que você a compreende “Nicolas – quer – brincar – brincar – brincar – brincar, não é?” e enquanto fala, tentar encontrar o mesmo tom de frustração e imitar os gestos que a criança usa (empatia, não chacota). Neste ponto ela percebe que você entende seus requerimentos e supostamente deve parar de chorar. Daí você diz com cara de desapontamento “nãããão…  outro dia você brinca mais com o trator, agora é hora de brincar com o patinho na banheira! vamos, eeeehhhh!” (e muda o foco).

Viu só? Deu pra perceber que EMPATIA é a chave, né?

Mas agora, me fala o que eu devo fazer diante das seguintes situações que têm rolado aqui em casa:

Cena 1 – Eu acabo de lavar meu cabelo e enrolo a toalha na cabeça enquanto visto minha roupa. Nicolas deita no chão em prantos dizendo “quer mamãe tirar toalha! quer mamãe tirar toalha!”. Eu então escolho minha batalha e aceito – beleza, ele não gosta do meu cabeção com toalha, vou tirá-la.

Cena 2 – Sem toalha na cabeça, continuo a vestir minha roupa. Nicolas começa a gritar insanamente e em meio ao choro eu consigo distinguir as palavras “quer mamãe colocar cabelo pra cima” – o que me faz entender que ele quer que eu prenda o cabelo. Desta vez não dá pra ceder, uma vez que cabelo molhado não se prende. Converso com ele usando o método do Dr. Karp, ele para de chorar, mas quando eu digo com respeito, empatia e amor “não, meu querido, mamãe gosta de secar os cabelos soltos ao vento” ele volta a chorar ainda mais insanamente que antes.

Cena 3 – Chegamos os três de um lindo passeio pela vizinhança – Nic feliz da vida. Tiramos nossos sapatos, casacos e “Nic, vem cá, deixa eu tirar seu tênis” – eu digo. NÃÃÃOOOOO! (já em tom gritado). “Nic, não precisa gritar, aqui não tem ninguém gritando. Vamos tirar o tênis?” Não!!!! Mamãe não!!! Quer papai tirar tênis. Outra vez, decidimos não gerar conflito e papai tira o tênis dele e vai tomar seu banho.

Cena 4 – Enquanto o papai toma banho, Nicolas desembesta num novo acesso de choro. O que é agora, Nic? – pergunto tranquilamente. Tá tudo bem? “Quer mamãe colocar tênis!!!! Buáááááááá!!!!”. Nicolas, mas seu pai acaba de tirar seu tênis, a pedido seu, porque você quer ficar calçado dentro de casa? Ele continua chorando. “Então vamos calçar esse tênis no urso? Que tal?” (tentativa de mudar o foco). NÃÃÃOOOO! Urso não!!!! Quer mamãe colocar tênis no Nicolas! Peço pra ele parar de gritar, de chorar e coloco o tênis.

Cena 5 – Dois minutos depois: Buáááááááá!!!! O que quer foi, Nicolas???? Quer tirar a jaqueta!!! Pois não precisa chorar por causa disso. Calma, vem cá, vamos tirar sua jaqueta. Mamãe não, quer papai!!!!

Cena 6 – Papai sai do banho. Nicolas, deitado no chão com jaqueta e tênis, lágrimas por todo o rosto. Mas ele já não estava mais chorando por causa da jaqueta ou do tênis, e sim porque queria que o PAI vestisse seu casaco pra ficar dentro de casa!!!!

Cenas 7 a 20 – Quer mamãe (e só mamãe) trazer leite. Quer papai (e só papai) ler estorinha. Quer mamãe (e só mamãe) dar banho no Nicolas. Quer papai (e só papai) ajudar a montar o trem.

E por aí vai. É o dia INTEIRO com caprichos bobos.

E ai de mim se tento fazer o que ele quer que o pai faça – a propósito, perceberam que são só as coisas divertidas, né? Me empurra, grita e me manda embora. E chora sem limites quando não é atendido. Sim, porque se eu estou trabalhando e o Rafa está lá pra vestir a roupa nele e ele não quer o pai, não tem escolha. Ele tem que aceitar o pai ajudando a vestir. Mas não aceita. Da ultima vez chorou por 50 minutos direto, por uma bobeira dessas!

Ah! E birra pra tomar banho ele não faz não, viu? (justo a que eu sabia como agir!!!).

Ô Seu Terrible Twos, precisava pegar pesado assim, é? 😦

* * *

Gente, QUALQUER luz é SUPER bem vinda, viu? Heeeeelp me!!!!