O lado cômico da maternidade


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O dia que eu fiz um book fotográfico

Eu passei grande parte da minha vida tentando fingir que certas coisas nunca me aconteceram. Entre elas:

– A vez que comi cocô de galinha achando que era cocada preta.

(Em minha defesa, eu só tinha 3 anos.)

– A vez que entrei na contra-mão numa avenida mega movimentada e minha única reação foi fechar os olhos, soltar as mãos do volante e gritar “eu vou morrer! eu vou morrer!”.

(Em minha defesa, essa era minha primeira semana dirigindo na mão-inglesa e juro que vi até túnel de luz azul com anjo – tava fazendo gracinha que ia morrer não!)

– E a vez que fiz um book fotográfico.

Jesus.

Mas ó, em minha defesa, o panfleto do Estúdio Fotográfico Sonora foi MEGA convincente, mega! Pra começar, tinha uma paisagem linda, quase transcendental, com um por-do-sol sobre o mar mais um arco-íris ao fundo, e uma águia se transformando numa mulher de cabelos esvoaçantes na frente. De um dos cantos saía um brilho de flash fotográfico, imagino que pra contextualizar. Coisa linda! Dava pra ver que tinham a manha total no Photoshop, coisa muito importante. Vai que eu precisasse?

Bom, e embaixo vinha escrita a seguinte frase em 3D (provavelmente feito no Word Art, eu disse que os caras eram bons) “Nossas fotos realçam a beleza que já existe em você.”

Nossa, fechou! Me convenceu total!

E como se fosse preciso, ainda ofereciam 10% de desconto. Oportunidade da vida, né gente?

Daí fui. Me maquiaram, jogaram mousse no meu cabelo, passaram batom da Elke Maravilha, me adornaram com brincos de cristal Swarovski, me ajeitaram as ombreiras. Me pediram pra jogar o cabelo pra frente e pra trás repetidas vezes e tacaram mais mousse. Disponibilizaram chapéu com pluma, echarpe vermelha e lenço de oncinha. Colocaram uns guarda-chuvas luminosos ao meu redor (galera era profissional mesmo), posicionaram as câmeras e nesse momento eu virei DIVA. Me senti poderosa, linda, uma deusa.

Até o dia que fui buscar as fotos.

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Chorei cinco dias seguidos.

Rasguei o panfleto separando mulher de águia, por-do-sol do arco-íris, céu do mar. Sem mostrar pra ninguém, escondi o book debaixo do meu colchão por anos a fio (junto com minha coleção de cartões Amar é). Ergui a cabeça, domei meu cabelo como pude e voltei à vida normal. Me formei, me casei, fui morar fora, procriei, virei ilustradora, fui feliz. Nunca mais me lembrei do bendito do book.

Até a ultima vez que fomos ao Brasil.

oi

***Sinceramente, mães precisavam de uma junta médica especializada pra explicar o que se passa no globo ocular delas que só vê beleza nos filhos. Como explicar?***

Pois não é que eu adentro a cozinha da casa da minha mãe à procura de um pacote de biscoito papa-ovo pra matar a saudade e dou de cara com meu passado Elke Swarovski enfeitando a porta da geladeira dela?

– Mas essa foto tá MARAVILHOSA, minha filha! Deixa ela aí! Olha esse batom bem passado! E que lindo tava o seu cabelo!!!

Juro que quase tive um treco. Aquela foto era pra mim um registro frustrado de uma das poucas vezes que tentei ser vaidosa na vida. Entre outras coisas, a Síndrome do Cabelo Alto voltou com tudo pra mim naqueles dias. Fiquei assim tão abalada, que à noite, nas raras oportunidades que o coala noturno me deixou dormir, eu fechava os olhos mas a única coisa que me vinha era a minha imagem em negativo. E piscando.

sonora

Foi no mínimo traumático.

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O galinheiro, o sassariquento e o ataque do coala noturno

Ah gente querida, como eu queria vir aqui toda semana pra papear um bocadinho com vocês! Mas quem disse que consigo? Ainda mais depois que cismei de fazer um tal de projeto 365, que minha vida ficou de cabeça pra baixo, assim como se ao invés de 2, eu tivesse uns 30 filhos pequenos, mais 3 cachorros e um galinheiro.

E vocês sabem que não sou dada a exageros, né?

Pois bem, então deixa eu terminar logo de contar essa ladainha da viagem pro Brasil, que já tá me dando vergonha eu estar no mesmo assunto até hoje, 2 meses depois de voltar de lá. Cruzes.

Culpa do galinheiro. Certamente.

* * *

Mas então. Como toda visita a Beagá, a correria é tanta, mais tanta, que quando as crianças começam a se acostumar com alguém, a assimilar o que é tia, primo ou irmã-do-coração da mamãe, já é hora de catar os pertences e visitar outra pessoa. Na saída, a gente só não esquecia de roubar um pão de queijo pra comer no carro e rezar pra Nossa Senhora das Familias em Visita pela Terrinha pra não ter engarrafamento.

Coisa que nunca aconteceu. Ocupadésima essa santa, aparentemente.

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Mas tirando o transito que não transitava (e que até me rendeu umas boas balas chitas que me ajudaram a minimizar certos traumas de infância), deu pra cortar muitos itens da minha lista de coisas que não podíamos deixar de fazer no Brasil.

Número 1

Matar a saudade de abraços. Porque o Canada tem de um tudo, gente, mas não tem abraço. Tirando nos encontros com brasileiros daqui ou os desafortunados que se deparam com ursos (Deus os tenha), a chance de você angariar um abraço aqui é quase nula. Mas matei minha abstinência da melhor forma:  abraçando muita gente querida e amada. Mesmo.

Número 2

Desgarrar a Lily um tiquinho. Porque pense numa criatura agarrada. Ah, que doce, você pensou num coala? Mas não tá nem perto, viu? Então faz o seguinte: pega esse coala, encapa ele com um velcro magnético possante, cola um tanto de bolinha de chiclete ao redor e joga um balde de carrapato por cima. Balde grande. Pronto, agora multiplica por 10. Essa é a Lily comigo. Por isso, foi uma verdadeira surpresa ver ela se jogando no colo de pessoas que ela nunca tinha visto na vida e até criando laços afetivos. Milagres do Brasil.

Número 3

Ver como o Nic se sairia com a língua portuguesa. Não que esse fosse um grande problema, pois português é sua primeira língua. Mas, como ele aprendeu inglês na escola e brincando com seus amiguinhos, quando ele brinca, mesmo que sozinho, ele SÓ fala em inglês. Por isso foi muito lindo e fofo observar ele escolhendo cuidadosamente as palavras pra falar só em português quando brincava com outras crianças. Fofo mesmo. E lindo.

Número 4

Rever a turma de faculdade depois de 10 anos. Muito bom!!! Exceto a parte de encarar que sou a mesma boba de antes, só que com 10 anos a mais.

Número 5

Visitar gente bacana. Desta vez teve cria nova pra conhecer e apertar, amigas grávidas pra encontrar, lasagna da Ignes pra degustar, Ouro Preto pra visitar com gente especial, e pipa pro Nic soltar com o maior especialista do mundo – meu irmão. Check, check, check, check e check.

Número 6

Ter tempo de pernas pro ar. O que significou ter momentos de não fazer nada e só ficar por conta de papear. Foi ótimo aproveitar minha família, amigos próximos e minha cunhada divertidíssima grávida do meu primeiro sobrinho de sangue – o Pedrinho, que nasceu há poucas semanas!!!

Número 7

Ter uns dias só de meninas lá em São Paulo. Conto TUDO logo, logo, prometo.

Número 8

Comer de tudo sem engordar. Sem comentários, desastre total.

* * *

Ou seja, foram 10 dias em BH super bem aproveitados! Mas claro, se você me permite ser bem sincera, sempre tem uma desvantagem aqui ou ali, né? E pra mim, a parte mais difícil foi, como sempre, manter a rotina das crianças.

Rá, caiu nessa, foi? Desculpa, mas essa é a versão genérica, que conto pra todo mundo.

Porque a verdade verdadeira, gente amiga, difícil mesmo foi ter que assistir de camarote a disponibilidade do marido pra sassaricar com os amigos toda santa noite enquanto eu ficava lá, sendo requisitada por dona Lily (que à noite resetava todos os avanços adquiridos durante o dia e voltava pra versão original © Coala Plus).

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À rotina corrida e imprevisível a gente acaba se adaptando, né gente? Agora marido sassaricando sem você é de matar. Já não basta passar a gravidez toda intacto, ainda tem que nascer sem leite nas peitas?

Por isso, enquanto o Sr. Todo Soltinho se encontrava com Fulano, Beltrano, Cicrano ou Soprano, Liloca apurava seu método de manipulação materna, que consistia basicamente, em ameaçar gritar a todo pulmão quando todo mundo da casa já dormia, a fim de conseguir acesso rápido e imediato às peitcholas.

Claro que funcionava.

Afinal eu é que não queria me tornar pessoa malquista e indesejada pelos donos da casa – mesmo que as pessoas em questão fossem sangue do meu sangue.

Nunca se sabe, melhor não arriscar. “Vem cá, escuta. Eu sei que a Lu é linda, maravilhosa, agradável, meiga (…) e que educa os filhos como ninguém. Mas que diabos foi aquela choradeira da última noite? Credo!!! Será que ela esqueceu que tem mais gente tentando dormir nessa casa? Como ela deixa a menina ter o controle daquele jeito? É nisso que dá dormir com filho, eu bem que avisei!'”

Deus me livre de alguém saber achar que a Lily me controla. Então disponibilizei.

No entanto, assim que Liloca foi bonificada com acesso livre e irrestrito à leitaria noturna, ela, que antes acordava uma a duas vezes, passou a acordar duzentas. Natural, vai! Infelizmente, 200 também foi o numero de camadas de corretivo necessárias pra camuflar o aprofundamento das minhas olheiras.

Agora pensa comigo. Se hoje, que estou no sossego da minha casa, cuidando do meu galinheiro tranquila, já ando com cara de quem passou a noite rodando dentro de uma betoneira e logo em seguida foi atropelada por um caminhão com rolo compressor, imagina no Brasil, com uma atividade diferente todo dia?

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Não foi bonito não, gente.

Em um mês, em seguida volto pra contar os causos de São Paulo. Última parte.


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Praia boa é praia azulejada

Anota aí, colegas: viagem que tem até grupo em Facebook, exclusivamente criado pra compartilhar o cronograma diário da família, não tem como dar errada.

Não tem.

Pra começar, o voo de ida foi um espetáculo, como já contei. Tá, cheguei no destino parecendo um chassi de grilo anêmico, mas vamos combinar que isso é um mero detalhe se você pensar que tivemos a grande oportunidade de fazer uma viagem dinâmica e nada monótona, na qual em menos de 24 horas vivemos a emoção de passar por Vancouver, Toronto, São Paulo, Rio e chegar em Cabo Frio de ônibus.

Êxtase define.

Chegando lá, tudo perfeito! Famílias reunidas, comida maravilhosa, até que… dou falta do Ergo-baby, meu super carregador (e tranquilizador) de Lily. “Certeza que esqueci no ônibus”, recapitulei. Felizmente, ficamos sabendo, que na rodoviária havia uma salinha de “Achados e Perdidos”, e por tudo nessa vida que eu tinha certeza que estaria lá. Afinal, que alma desalmada pensaria em levar para si um trapo de pano surrado e o qual tão pouca gente sabe pra que serve?

Pois levaram.

Okay, sem problema. Respiremos fundo e esqueçamos do incidente. Bora aproveitar a praia, que é pra isso que fomos!

* * *

Cabo Frio é ótima, e eu tinha certeza que as crianças iriam adorar! Eu amo Minas, mas infelizmente ela tem o pequeno defeito geográfico de não ter praia, né? Por isso fizemos tanta questão de ir enfrentar a baldeação pra chegar lá.

mg

(Aliás, fica aqui minha humilde sugestão pra uma futura reformulação da cartografia brasileira. Que tal adicionar dois simpáticos rabicozinhos ali em Minas Gerais, anexando Cabo Frio e Guarapari, que se bobear, têm mais mineiros que a propria Belo Horizonte? #ficaadica)

Mas enfim.

Nossos dias em Cabo Frio teriam sido perfeitos se eu pelo menos gostasse de praia. As crianças curtiram muito,  mas eu particularmente continuo compartilhando da opinião da minha cunhada, que praia boa é praia azulejada. Por que né, gente? Praia é ou não é a mesma coisa que ficar marinando na água salgada e depois ir se esticar na farinha de pão?

Me diga você.

E se tem uma coisa que não sou muito chegada em ser, é frango empanado. Gosto não.

Mas tudo bem, pois fui pra lá com o espírito livre, o coração venturoso e o corpo disposto a aproveitar sem reclamar.

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Areia? Vamos transformá-la em diversão pras crianças.

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Vento e chuva se armando? Encapota a cria, mesmo que seja com fantasia de cogumelo.

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Pombos querendo se meter na sua farofada? Chama a vovó pra se divertir com o neto.

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Ficou entediada? Desopila e finge que tem 12 anos (ou escancara que é boba mesmo, que todo mundo vai dizer que nem tinha percebido).

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Muito sol na cabeça? Bora procurar a sombra de um coqueiro, ainda que pequeno.

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Tem pernilongo na casa? Aproveita pra desfilar seu modelito de animal print mais que original! Vai estar super na moda, gata!

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Fez tudo isso, mas cansou? Então vai pra piscina e aproveita pra mostrar pra todo mundo que mãe, além de fazer milagre em casa, ainda sabe andar sobre as águas!

O que não dá é pra reclamar!

Né?

———————-

PS: Acabei comprando o Sampa Chila  pra substituir o Ergo-baby perdido. A qualidade não é a mesma, mas certamente salvou nossa viagem de volta!


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Quando viajar com crianças é só uma questão de perspectiva

“Viajare con crianzae pode ser bonno, malum o terriblae. Dependum de la perspectivae, et também se habemus mamam, se habemus papam et como agem los duo.”

Proverbium latinum.

Depois da última viagem às terras tupiniquins, jurei pra mim mesma que só voltaria após a invenção do teletransporte.

Bom, na falta dele, pensei que o mínimo que as companhias aéreas deveriam fazer era promover todo mundo viajando com filho pequeno direto à primeira classe.

– Seu nome, por favor.

– Luciana Azevedo.

– Passagens somente pra senhora, Sra. Azevedo?

– Não, também vou levar minha filha de 1 ano e meu filho de…

– Desculpa interromper, mas não precisa dizer mais nada. A senhora aceita uma taça de champanhe?

– O-o que está acontecendo? Peraí, isso é chuva de confetes?

– Sua família acaba de ser automaticamente promovida à primeira classe em todos os voos de ida e volta pelo preço da econômica! Parabéns!

– Me-mesmo?

– Sim! E por terem dois filhos pequenos, vocês ainda terão uma limosine à disposição pros traslados devidamente equipada com chofer, manicure, duas cadeirinhas pras crianças, cookies de semente de girassol e chia, tábua de frios e uma vasta seleção de vinhos franceses. Tudo sem custo adicional!

Gente! Custava???

Mas não. Sabem o que fazem do contrário?

Colocam uma mãe, um pai e uma criança de dois anos que nunca tinha dormido uma noite completa na vida, confinados no meio de uma estúpida fileira de 5 assentos no meio do avião. Imagina a situação. Duas pessoas e meia enclausuradas por 10 horas noturnas em três poltroninhas esmirradas (não no sentido de terem sido feitas de mirra… [porque lembra, né? Ouro, mirra e incenso?] … mas no sentido de serem apertadas mesmo – só pra esclarecer).

Pra piorar, ouvi dizer que a mãe em questão, coitada, ainda sofreu requerimentos intestinais a cada meia hora durante todo o voo.

Se fosse comigo, eu só não pedia pra morrer ali mesmo porque tenho superstição pra essas coisas.

* * *

Agora, pior que isso, é passar todo um perrengue desses, enquanto do seu lado tem um casal fofo, todo trabalhado no filminho, sonequinha e comidinha de avião, com um filho que dorme o voo todinho, sem dar um pio.

Aí não!

Passei exatamente por isso nas 28 horas de voo da Australia pro Brasil, quando o Nic estava com 5 meses e tinha refluxo. O avião era até bacana, equipado com bercinho e tudo, mas era como ter um banquete na nossa frente e não poder comer, sabe? Veja bem, pra começar, eu passei metade do tempo de voo em pé no corredor, dançando forró com o iPod coladinho no ouvido do Nic, pois essa era a única forma que ele dormia. Eu cansei de escutar os atendentes me implorando pra sentar e colocar o cinto, e até aprendi a ignorar a cara de interrogação dos gringos olhando pra mim. Tudo isso, pra colocar o Nic no berço e ele acordar – enquanto o vizinho não acordava nem pra dizer “nhém”.

Brutal.

Ou seja, enquanto eu saí do avião tonta de cansaço, zonza de inveja e enjoada de todo aquele Fala Mansa na minha cabeça, os pais dessa criança dorminhoca devem ter saído propagando que voar com bebê é mamão com mel, de tão doce.

Perspectivas diferentes.

Daí, que esse ano, só posso ter batido a cabeca em algum lugar, porque decidi ir de novo pro Brasil. E pior, com uma criança a mais.

Felizmente, quem tem marido que viaja muito, alem de aprender a escovar os dentes com o pé, ainda tem chances de conseguir promoção pra classe executiva com as milhas acumuladas.

Não precisamos de esmola não, viu suas airlines?

* * *

IMG_4015(as quiança tudo de pijama no aeroporto)

Entro no avião às 10:30 da noite.

À medida que me aproximo do meu assento, mal consigo conter uma lágrima furtiva de emoção. “Amor, me belisca (mas não com força) que eu só posso estar sonhando” – consigo balbuciar.

Ali, à minha frente, se encontrava a visão mais espetacular que uma mãe em espaço aéreo pode sonhar: poltronas individuais, confortáveis e com-ple-ta-men-te reclináveis. PERFEIÇÃO. O Éden sobre duas asas.

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Até que eu sento e me dou conta que o tal Éden era estreito demais pra mim e Lily.

Acredito que o resto do voo vocês mesmos podem adivinhar como foi. Só quem já tentou dormir com uma criança de sono leve encima de si próprio, e tentou com todas as suas forças ignorar aquela coceirinha persistente na beirada do umbigo, sabe que a situação fica insustentável depois de meia hora. Ou mesmo 1 minuto, dependendo da coceira.

Ali eu fiz de tudo, colegas. Tentei dormir sobre meu ombro pra caber a Lily do meu lado, troquei de lado, voltei com ela pra cima de mim, ela escorregava, eu a sustentava com o braço, o braço adormecia, eu virava de lado outra vez, ela acordava, eu dava peito, punha travesseiro, tirava travesseiro, chorava.

Oito horas se passaram e eu não preguei os olhos. Tanto tempo fazendo cama compartilhada, pra descobrir que não sei compartilhar poltrona.

Olho pro relógio, faltam 2 horas pra pousar. Tento abstrair, lembrar das minhas aulas de ioga e me transcender pra um nível superior de pensamento. Penso no quanto somos afortunados por termos conseguido o upgrade, que raras famílias têm essa oportunidade, e como era bom saber que o Nic e o Rafa estavam ali, confortavelmente instalados nas poltronas ao lado.

Peraí.

Rafa. Confortavelmente instalado. Hm.

É, nunca fui boa em ioga mesmo.

Pro inferno com esse negócio de elevar o espírito. Ao invés, elevo minha cabeça pra chamar o pilantra pra me ajudar. Mas sem chance, as cadeiras são altas demais e incomunicáveis. Nesse momento meus olhos passam pelo homem à minha frente: tranquilo, relaxado, sentado comodamente com suas pernas esticadas, encosto semi-reclinado, sorvendo sem pressa o seu café matinal, enquanto assiste à sua ampla seleção de lançamentos. Puto.

Nisso, aparece um outro ser na minha frente.

Figura sorridente, simpática e descansada. Passa a mão nos cabelos com graciosidade, faz cute-cute na bochecha da Lily e solta:

– E aí, amor, me fala se todo o tempo que você passa sozinha com as crianças enquanto eu viajo, não compensa nessas horas?

O fulmino com os olhos a ponto dele virar carvãozinho no chão. Entrego a Lily pra ele, olho pro relógio: não dá pra perder tempo, tenho 34 minutos.

Reclino totalmente minha cadeira, me deito e pela primeira vez em quase 10 horas sinto o prazer em viajar na classe executiva.


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Exclusivo Castelo de Caras

Oi gente!

Olha, a culpa não foi minha por ter demorado tanto a postar fotos da nossa viagem ao Brasil, e sim da Caras, que enrolou horrores pra publicar a matéria com a gente.

Mas enfim, está aí! Deleitem-se!

* * *

Exclusivo Castelo de Caras: Luciana, em total estado de felicidade e plenitude, conta como foram suas férias no Brasil com a família

Após seis anos morando no exterior, Luciana (25) revela que o que mais sente falta ao morar fora é da companhia da família e dos amigos, principalmente depois do nascimento do Nicolas (2), fruto do feliz casamento com o geólogo Rafael Gradim (31). “Foi muito bom rever todo mundo. O coração já estava apertado de tanta saudade e o Nicolas se sentiu mais feliz e à vontade que nunca!” conta ela cheia de entusiasmo.

E tanta alegria tem explicação. Pra começar, a pequena família foi recebida com muita festa e cartazes dizendo “Hooray! Que bom que vocês chegaram!” no aeroporto de Confins em Belo Horizonte, cidade natal do casal. “A gente não esperava ver as nossas duas famílias lá. Eles esperaram 4 horas, pois perdemos o vôo pra BH e minha mãe até perdeu um dia de trabalho. A chegada foi com certeza um momento emocionante da viagem”, recorda Luciana, que apesar da agenda social apertada também aproveitou pra relaxar. “Uma das partes mais difíceis de se ficar só um mês no Brasil é que a gente nunca passa muito tempo com todo mundo e os dias têm que ser todos programados” desabafa ela. “E por causa disso, a gente procura sempre fazer passeios relaxantes e que envolvam um grupo maior de pessoas.”

Um desses passeios incluiu sua melhor amiga, a empresária Simone (25), que há dois meses deu a luz ao Yann, fruto de seu relacionamento com o artista Rodrigo (33). “A Si é uma pessoa linda e adorei visitar o parque Vale Verde com ela. A gente quase conseguiu colocar o papo em dia (risos)” diz Luciana, bem humorada. “Também foi lindo ver o Nicolas interagindo com ela e a chamando de Money”, revela a mamãe coruja.

Além deste parque, ela conta que também visitou o Inhotim, um dos maiores museus de arte contemporânea ao ar livre do mundo “Eu amo arte, um bom papo e caminhar em meio à natureza, e esse passeio nos ofereceu tudo isso. Além disso, tivemos a honra de sermos guiados por minha talentosa prima” diz Luciana referindo-se à artista plástica Esther Azevedo (22). “Foi um grupo bem grande de pessoas e nos divertimos à beça! Só tivemos que tomar cuidado com o sol, claro, que estava muito forte” acrescenta a mineirinha, que nunca deixa de cuidar da sua pele.

 

Helô, Dodôra, Vovó São, Lu, Bel-de-Bel, Marília, Ana, Rei, Patti, Nic. Fotos tirada por Esther.

 

– Qual a sua receita pra manter esta pele sempre jovem?

– (risos) Não faço nada de mais, tenho a sorte de ter a pele mais oleosa. Mas de uma coisa que nunca abro mão é do meu protetor solar Clinique Sun.

– Essa foi a primeira vez que vocês visitaram o Brasil com o Nicolas?

– Não, na primeira vez ainda morávamos na Austrália e ele estava muito pequeno, só tinha 5 meses.

– Como foi a reação dele diante de tantas pessoas diferentes? Ele estranhou muito?

– Não estranhou nada, ele amou todo mundo e foi ótimo pra ele saber que também é amado por tanta gente. Só nos primeiros dias que ele estranhou um pouco as mulheres (risos) e ele só aceitava ir no colo dos homens. Mas isso passou logo e em poucos dias ele já estava abraçando tudo mundo.

– Como foi dividir o tempo de vocês entre as duas famílias? Houve muita disputa pra ficar com o netinho?

– Não, foi tudo muito harmonioso. Desta vez a gente resolveu passar metade dos dias com a família do Rafa e metade com a minha. Elas não moram muito longe uma da outra, mas isso evitou que passássemos os dias indo e vindo de uma casa pra outra e deu tempo do Nicolas se acostumar com cada uma e cada ambiente.

– E também sobrou tempo pra todos os amigos?

– Claro! (risos) Primeiro tivemos um encontro sen-sa-ci-o-nal na casa da nossa querida amiga Barol, que inclusive é cozinheira de mão cheia. E lá, além de comermos muito (risos), também tivemos a oportunidade de rever vários amigos gente-boa da geologia; além de conhecer o Rodrigo, novo relacionamento da Barol e a doce Maitê, filha dos fofos Taís, que escreve o blog Tudo de Bombom, e Cassemiro.

 

À esquerda: Lu, Barol, Taís, Maitê. À direita: Tripa, Diogo, Rafa, Nic, Mateus, Cassemiro, Sérgio, Branco

 

– E houveram mais outros encontros?

– Ah, sim. Também promovemos um com pizzas caseiras na casa da minha sogra, que foi ótimo! Lá tivemos o prestígio da presença dos irreverentes Podrões –  grandes amigos do meu marido, acompanhados de suas esposas, a amiga Ignez, as queridas Si e Eline com as famílias, os inteligentíssimos Sérgio Túlio e doutora Rosa, além do escritor e roteirista Gui Lessa e do perito Maurício Cachinhos. E depois disso também recebemos a visita da adorável Anita com os pais dela. Foram encontros memoráveis!

 

Simone, Lu, Eline. Ao fundo: Stela e Ignez

 

 

Aylton, Gui, Rafa, Nic, Maurício

 

 

Sérgio, Rafa, Lu, Dra. Rosa

 

– E o Nicolas aprendeu muito com a convivência com tantas pessoas?

– Ô, claro! Primeiro, aprendeu que é ótimo ser o centro das atenções. As pessoas não paravam de pedir a ele pra fazer a voz de monstrinho, que ele mesmo inventou, e cantar as várias musiquinhas que ele aprendeu lá. Além disso, ele agora aprendeu a falar “Ai, meu Deus do céu! Puxa vida! Nossa Senhora! e Ai, tadinho…” (risos) Só no Brasil mesmo pra aprender todas essas coisas!

– Ele se comportou bem em todos os eventos?

– Quase todos (risos). A gente foi pro Brasil nesta época principalmente por causa do casamento da Fabiana, irmã do Rafa, com o Bruno. O Nicolas seria um dos pagens, mas infelizmente coincidiu com a hora dele dormir e tivemos que levá-lo embora logo após a entrada da noiva, que por sinal, estava encantadora…

– Então vocês perderam a festa do casamento?

– Não, felizmente ele aceitou bem a companhia da Sueli, e a gente conseguiu voltar. Foi nossa primeira grande festa desde que o Nicolas nasceu!

– E no geral, você lembra de alguma história engraçada pra contar?

– Agora só me lembro de uma na casa da minha tia Rita… Lá tem um ninho de passarinhos com dois filhotes que o Nicolas ficou encantado e toda hora pedia pra ver. Daí um dia, minha tia Tereza com a Thais foram nos visitar. A gente tirou a foto delas com o Nic, mas ele não olhou pra câmera, então minha tia disse “Olha o passarinho, Nicolas!”. Com isso, ele imediatamente se levantou e saiu correndo lá pra fora pra ver o passarinho de verdade… (risos).

 

Taís, Nicolas, tia Tereza

 

– E quais foram outros grandes momentos dessas férias?

– Ah… além de todos que eu já mencionei, sem dúvida o dia que levamos o Nicolas ao parque de diversões, o noivado do meu irmão com a divertida Ana, ver todos os adultos dançando a Galinha Pintadinha com o Nic, a primeira briga do Nicolas de rolar no chão que aconteceu com a priminha Babi por causa de uma mochila (risos), a ida ao parque pra alimentar os patinhos, a paciência do priminho Dudu pra brincar com ele toda hora, o Nic tentando tirar a tatuagem da Patti com uma escova (risos), a visita pra conhecer o fofinho do Yann, o colinho das vovós, titias e da dindinha que não tem igual, as brincadeiras com o tio Nael e a tia Cátia e o mais emocionante de todos, o apego do Nic com o tio Toninho, quem costumava evitar todo e qualquer contato físico e desta vez até carregou o Nic no colo…

 

Diversão pra criança ou... pros adultos? Nas fotos: Patti, Lu, Ana, Rei, Nic, Babi, Dudu

 

 

Vovó São cozinhando ao fundo, Nicolas tirando a tatoo da dinda

 

 

Nic com vovó Stela e tia Marcela

 

 

Rafa, Si, Yann, Lu

 

 

Nicolas com o tio Toninho

 

– Então foi tudo perfeito não é? Houve alguma coisa que vocês não gostaram?

– A única coisa é que descobrimos que o Nicolas é suuuuuper alérgico a picada de insetos, e o que não falta no Brasil são pernilongos. A gente teve que tomar várias medidas pra ele não ser picado, mas mesmo assim não conseguimos evitar sempre e teve dias que ele estava com a carinha toda inchada e muito incomodado com a coceira. E outra coisa chata foi o fato do Rafa ter que voltar pro trabalho após duas semanas de férias. A gente já sabia, mas não deixa de ser chato…

– E como foi a volta à rotina em Vancouver?

– Sem problema. O Nic já está tão acostumado a viajar que não tem mais problemas com fuso horário, e o sono dele até melhorou desde que voltamos. Só uma coisa a gente não se acostuma tão fácil… a falta do calor humano e da presença das pessoas que amamos… Outro dia mesmo, estávamos conversando com minha família no Skype e o Nic pedia o colo da dindinha e da vovó… Essa é a parte mais difícil de se morar fora, sem dúvida…

* * *

Bacana a matéria, né gente? E eles gostaram tanto de me entrevistar que até pediram pra cobrir a festinha de aniversário do Nic, que aconteceu ontem. Mas ó, vou contar pr’ocês: o cachê não é lá grandes coisas não, viu? E acredita que eles só me serviram um suquinho aguado na entrevista no castelo? Sem falar que esse negócio de ficar contando a idade da gente pra todo mundo tá por fora… Bom, tudo bem que eu só tenho 25 e não tenho problema com essas coisas, mas tem gente que não gosta, né? Então achei melhor recusar…

Assim, no próximo post, eu mesma volto pra contar como foi a comemoração dos dois aninhos do Nic, tá? Me aguardem!

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Falando em nomes… e o nome do ganhador?

Oi lindezas!

Então… hoje é o esperado dia do sorteio!!!

– Êeeeeeee!

Mas antes de sortear um nome… deixa eu contar umas coisas sobre nossa última viagem.

– Nããão!!! Buuu! Fora! Faz o sorteio logo!!!

Nossa, gente, calma… Olha… O problema é que eu ainda tô escrevendo os nomes nos papéizinhos…

– O quê??? Pra que isso? Vai gastar papel com sorteio?!!! Buuuu! Usa o random.org aê!!!

Errr… bom, primeiro, o papel é reciclado… E além disso, eu pensei que já que estou sorteando um presente feito à mão, que ficaria bacana fazer um sorteio mais artesanal também…

– Tá bom, vai… Mas não demora muito!

Então tá! Enquanto vou preparando tudo, deixa eu ir contando…

* * *

É que eu tava aqui lembrando, que antes da gente ir pro Brasil, sabe que pro Nic as pessoas não tinham nome? Era assim: tirando Nicus (=Nicolas, tá gente?), mami ou papi, todo mundo pra ele era neném, menino, menina, homem ou mulher. Ele saia apontando as pessoas na rua ou lugares e classificando:

– Aiá, muié, mamãe!

– Isso, muito bem, é uma mulher. Mas não aponta não, tá?

– Aiá, neném!

–  É, um neném, e dos bem bonitinhos!

– Aiá, homem, mami!

– Errr… mais ou menos Nic… Mas olha que cachorrinho fofinho aquele ali!

Daí, a gente foi pro Brasil e de repente todas as pessoas passaram a ter um nome próprio ou uma forma única de chamar. Era vovó, Marcela, Babi, Dudu, Patti, Rei (…). Ele começou até a se divertir com os nomes e substituir nas suas músicas preferidas:

Cai, cai, Fernanda

Cai, cai, Fernanda

Na rua no sabão

Não cai não

Cai arri na minha mão

E adorava ver as titias se derretendo…

* * *

– Aaahh! *suspiros* Que bonitinho… Mas e o sorteio?

Tá quase lá gente… as coisas estão avançando bem por aqui. Olha só, já escrevi o nome de todo mundo. Foram 40 participantes.


* * *

Bom, mas continuando… foi também lá no Brasil que ele percebeu que cachorro, além de ser chamado de au-au, woof-woof e doggy, também tem nome próprio. E foi onde ele se deu conta que cachorros são um dos animais que ele mais gosta na vida, independente do nome que ele tenha ou da forma que ele brinque. Foi o caso da Nina, lá na casa do Yann, que pulou com a maior vontade no peito dele. Ele caiu no chão e ainda bateu a cabeça na parede.

– Buáááá! Buáááá! – chorava ele desconsolado

– Viu? Agora chega de brincar com a Nina, vamos brincar aqui dentro com seus carrinhos – falou o papai

– Nnnnnnnnnão! (é, porque agora ele aprendeu esse NÃO comprido cheio de Ns). Qué mais brincar Nina!

– Mas ela acabou de te machucar!

– Mais Ni-na!

E a partir disso, passou a adorar chamar cada qual pelo seu nome…

– Vem cá, Nina! Vem cá Penéiope! Vem cá Luna!

E por falar na Luna… essa era a mais cotada. E de tanto ser apertada, abraçada e beijada pelo Nicolas (oi, Felícia? Se cuida!) fugia ao primeiro sinal da sombra dele virando a esquina: “Nuuuuuna!!! (=Luna) Cadê você?! Nuuuuna, vem cá!”. E vinha todo triste me perguntando “Cadê Nuna, mamãe? Nuna sumiu! Nicus gosta Nuna.”

* * *

– Aaai, que lindinho ele falando que gosta da Nuna… quer dizer, Luna…  Mas… E O SORTEIO?

Quase… Já cortei e dobrei os papeizinhos ó:

Agora só falta encontrar meu parceirinho pra me ajudar.

– O quê? Como assim?

É que o Nicolas é quem vai sortear, né gente… Peraí que eu vou lá ver onde é que ele está.

(todo mundo com cara de tédio)

Xiiii… ele tá ali assistindo a Galinha Pintadinha… Tá dançando e cantando a música do Pintinho… precisam ver que gracinha… Mas ele falou que logo depois dessa música ele vem.

* * *

Mas então, enquanto isso, deixa eu continuar contando.

E como não podia deixar de ser, né gente, foi também no Brasil que ele se deu conta que ninguém mais chamava a gente de mami e papi (ou mamãe e papai), SÓ ELE. Pois claro que ele se adaptou rapidinho e em poucos dias já chamava a gente pelo nome também:

– Ô Fael! Ô Ciana! Ô Nuuuuu! (=Luuuu)

Tão lindo…

Mas tão lindinho quanto, foi a sua inseparável priminha Babi de 2 anos e meio, achando que meu nome fosse nada mais nada menos que “Mami”. E não parava de me chamar:

– Mami! Vem brincar comigo! Mami! Vem assistir desenho!

Fofinha demais, né gente? Pois olha os dois juntinhos aí na foto…

* * *

Ôpa! Pronto! O Nicolas chegou! Agora sim, o sorteio!!!

– Êeeeeeee! Até que enfim!

Mas antes, gostaria de dizer que vocês merecem! E quero aproveitar pra agradecer a companhia de sempre de vocês, os comentários, a disponibilidade de contar o que cada um mais gosta e claro… a paciência de todos!

Então Nic, tira aí um papelzinho!

Pronto! Sorteou! Agora lê o nome pra mamãe!

É… peguei pesado, né meu bem? Mas mamãe tá brincando… não precisa ler não. Dá aqui, deixa eu ver quem ganhou.

Olha! Foi a Clauo!!!

Parabéns, Clauo! Já estou entrando em contato com você pra que você me mande as fotos e os detalhes pro seu desenho tá? E pra quem não ganhou, depois tem mais!

Beijos pra todo mundo!

 


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A viagem ao Brasil – com glossário

Viagens de avião com criança são no mínimo tensas, e sempre carregam em si um grande potencial pra se tornarem traumáticas, independente do preparo.

A primeira viagem com o Nicolas foi Australia-Brasil, ida e volta, e eu voltei com a certeza de que não teria santo nenhum que me convenceria a colocar os pés num avião de novo nos próximos 15 anos.

Pois um ano depois, estava eu, embarcando numa viagem de um mês e meio com a família entre Austrália e Canadá envolvendo, não somente um, mas múltiplos voos. Pois dizer que fiquei traumatizada seria eufemismo e daí jurei que jamais, em hipótese alguma na vida, voltaria a viajar para terras longínquas de novo.

Três meses depois, estávamos embarcando pro Brasil, de férias.

* * *

Entender como meu cérebro funciona pra tomar certas decisões, isso você jamais entenderá, posto que nem eu mesma entendo. Mas com o seguinte glossário, você terá grandes chances de entender pelo menos, como foi nossa viagem de avião pro Brasil.

Glossário prático em desordem alfabética


american airlines – companhia aérea com aviões velhos, procedimentos esdrúxulos e intermináveis de segurança, e horríveis fileiras de cinco assentos.

lactosice noturna crônica – fenômeno iniciado há um mês e meio, que remete aos tempos idos do gugu-dadá, no qual o Nicolas quer tomar leite a cada duas horas toda madrugada (ressalva: ele está com quase 2 anos).

monstrinho – estado ranzinza,  chiliquento, chechelento e chororô que o Nic atinge sob circunstâncias específicas (e raras, devo acrescentar).

hora monstrenguenta – circunstância na qual o Nicolas dá lugar ao monstrinho. Ocorre sempre que seu horário limite de ir pra cama é ultrapassado. Mas atenção: tal metamorfose somente acontece quando a criança citada se encontra em lugares confinados e/ou entediantes, já que em lugares abertos e/ou divertidos o efeito é contrário (como se ele recebesse uma dose extra de energia mega-power, sabe?).

E a monstrenguice também pode ocorrer quando as doses de leite na madrugada são negadas. Neste caso, o choro pode atingir níveis decibélicos bastante indesejados.

ataque pirirítico – requerimento intestinal abrupto e intenso

chamadas ao juca – vômito e mal-estar provocados pelo movimento de turbulência da aeronave

assentos confinados (figura 01)- os três assentos do meio da horrível fileira de cinco, que restringem idas ao banheiro, esticadas de pernas ou voltinhas com a cria monstrenguenta sempre que precisar.

 

Figura 01 - esquema mostrando os assentos confinados em vermelho

 

 

* * *

Pois apesar da american airlines, do voo marcado justamente pra hora monstrenguenta (que culminou no Nic relutando pra dormir e chorando por uma hora direta), dos assentos confinados, da lactosice noturna crônica que atacou de hora em hora, sobrevivemos todos ao voo da ida.

Já a volta, prometia ser uma mera repetição, uma vez que os horários dos voos e escalas seriam praticamente os mesmos. Somente uma coisa seria diferente…

O Rafa, como só conseguiu duas semanas de férias, teve que fazer uma de suas viagens de trabalho ao Peru, enquanto eu continuei no Brasil. E pra evitar que eu viajasse todo o caminho de volta ao Canadá sozinha com o Nic, combinamos de nos encontrar em SP e daí seguirmos juntos de lá.

Perfeito, né? É, se não fosse o Rafa ter perdido o voo de Lima pra SP…

Abalada, descabelada e faltando pelo menos dois braços a mais pra empurrar tantas malas mais carrinho pelo aeroporto afora, tentei remarcar nossos voos pro dia seguinte. A atendente checa daqui, checa dali e nada. Sem lugares nos voos pelos próximos três dias.

Pois pensando no tanto de coisas que eu tinha pra fazer em Vancouver, pensei que três dias seria tempo demais pra esperar. Respirei fundo e decidi  que eu teria que encarar aquela viagem sozinha mesmo, afinal seria mais fácil pro Rafa conseguir um só lugar num outro voo que três.

Mas gente, ainda bem que Deus protege os insanos mais que nenhuma outra pessoa nesse mundo. Por sorte, fui impedida de viajar já que eu não tinha comigo uma tal de autorização do pai autenticada pra sair do país com o Nicolas…

* * *

E foi assim que o Rafa chegou a SP e ali passamos mais alguns dias à espera do próximo voo disponível. E como choveu, não conseguimos passear, mas recebemos a querida visita da Raquel e do Elves (grávidos do Pedro) e que moram por aquelas bandas…

* * *

E hoje, só fico aqui imaginando…

… se eu tivesse mesmo viajado sozinha, e passado por todas aquelas chamadas ao juca e ataque pirirítico sem precedentes que eu passei no voo de volta, ainda mais estando a gente novamente em assentos confinados… (teria sido the horror! the horror! – mais ainda do que foi).

Daí sim, eu com certeza teria voltado dizendo que pra viajar de novo, só quando tornarem realidade o tal do teletransporte (indolor)…

Pois por agora, só me limito a lembrar como foi bom estar no Brasil…   A única coisa difícil de entender é como é possível ter voltado com mais saudades do que quando fomos… A gente vai pra matar as saudades, mas acaba se enchendo de mais…

E o que faz a gente se encher dessa saudade sem limites é também a razão do que nos faz capaz de encarar essas viagens sempre… seja ela com ou sem criança, com ou sem monstrenguices, com ou sem piriri…

Pois no final das contas sempre vale a pena.

* * *

Nos próximos posts vou contando mais sobre a gente no Brasil.